Título: Empresário usa tecnologia contra mídia de Gbagbo
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2011, Internacional, p. A14

Há dois meses, ele levava uma vida pacífica em New Jersey, com seus três filhos, um belo carro e sua própria empresa. Agora, ele está na guerra, mas sua mão acaricia o mouse do computador, e não um gatilho. Em vez de cinturões de munição, ele usa uma caixa de e-mail. Nascido na Costa do Marfim, ele retornou a Abidjã para lutar pela democracia e acabou no meio da luta entre milícias leais aos dois homens que reivindicam o poder: o presidente Laurent Gbagbo e o opositor Alassane Ouattara, reconhecido internacionalmente como o vencedor das eleições de novembro.

As forças de Ouattara lançaram uma ofensiva contra Gbagbo e a batalha se intensificou em Abidjã, centro comercial da nação. Mas poucos especialistas na Costa do Marfim conhecem as ferramentas de uma moderna guerra de propaganda: como montar uma estação de TV, provocar interferência no sinal de televisão e rádio do inimigo ou criar uma conexão de TV por satélite. Os que sabem, trabalham para Gbagbo.

Portanto, o americano de New Jersey, que tem uma empresa de comunicações de alta tecnologia nos EUA, recebeu o apelo para ajudar Ouattara. Ele pede para que sua identidade não seja revelada, temendo violência contra parte da família em Abidjã. Antes da sua volta ao país, Ouattara não tinha nenhuma presença na TV, Gbagbo havia fechado os jornais opositores e restringido as mensagens de texto por celular. Rapidamente, o americano-marfinense tomou posse de um restaurante de hotel e o transformou em uma estação de TV. Além disso, montou um estúdio de rádio e criou uma conexão por satélite, que dificilmente sofrerá interferência das forças de Gbagbo. É uma batalha diária de engenhos, porque os especialistas do presidente de facto tentam interferir nos sinais da TV opositora transmitindo na mesma frequência.

Nosso personagem também usa o e-mail para divulgar massacres da polícia. Ele pede pelo Facebook e pelo Twitter que testemunhas enviem vídeos de chacinas. Para ele, é importante mostrar as atrocidades para neutralizar a propaganda de Gbagbo e fazer justiça aos mortos. Entretanto, os telespectadores muitas vezes se queixam de que as imagens violentas são excessivamente macabras. Ele tem saudade da família em New Jersey e não pretende ficar no país depois que Gbagbo cair. "Não é divertido, mas estou tentando ajudar", diz. "Meu legado será ter ajudado meu país." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA