Título: França e ONU atacam palácio em Abidjã
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2011, Internacional, p. A14
Forças leais a opositor atacam residência do presidente de facto da Costa do Marfim
ReutersCerco. Explosões tomam conta de Abidjã, maior cidade da Costa do Marfim, após ataques de forças da ONU e da França A ONU e a França lançaram ontem ataques contra a residência oficial e o palácio do presidente de facto da Costa do Marfim, Lauren Gbagbo. Segundo o jornal El País, os ataques teriam ajudado as tropas do presidente eleito, Alassane Ouattara, que pela primeira vez entraram em Abidjã, maior cidade do país, a tomar a residência de Gbagbo, cujo paradeiro é desconhecido.
Gbagbo perdeu as eleições para Ouattara em novembro, mas se recusa a deixar o governo. Segundo a ONU, a decisão de abrir fogo contra as forças do presidente de facto ocorreu depois que os capacetes azuis haviam sido atacados em Abidjã e não havia garantias de que a população civil seria preservada.
Nos últimos dias, informações de massacres vêm sendo divulgadas por entidades independentes. Em Duekoue, oeste do país, 800 pessoas foram mortas, de acordo com a Cruz Vermelha. Segundo a ONG Caritas, o número de vítimas ultrapassa mil.
A responsabilidade pela chacina, segundo a ONU, é das tropas de Ouattara, que controlam a região, um conhecido reduto de Gbagbo. Se comprovado, o caso pode minar a legitimidade do presidente eleito, que conta com a simpatia da comunidade internacional.
A ONU garantiu que os ataques de ontem estão dentro do mandato concedido pelo Conselho de Segurança e a ofensiva seria uma forma de prevenir que armas pesadas continuem a ser usadas pelas forças de Gbagbo contra os capacetes azuis e civis.
Em Paris, o gabinete do presidente Nicolas Sarkozy confirmou que as tropas franceses estavam sendo acionadas para ajudar a ONU. O objetivo da França seria também proteger cerca de 12 mil franceses que vivem no país. O presidente americano, Barack Obama, disse ontem que Gbagbo deve deixar de reivindicar a presidência e atender a vontade do povo.
Enquanto o envolvimento internacional ganhava ontem novas proporções, as forças de Ouattara entraram em Abidjã para uma "ofensiva final". Eles teriam cerca de 9 mil homens para realizar a operação de controle da cidade, que terminaria em 48 horas, segundo o comandante Issiaka Ouattara.
Para representantes de Gbagbo, a ofensiva da ONU e da França viola as leis internacionais. "É um ato inaceitável de guerra", diz um comunicado emitido por diplomatas ligados ao presidente. "Mísseis franceses mataram crianças. Paris ainda acha que é uma potência colonial." Toussaint Alain, porta-voz de Gbagbo na Europa, disse que o ataque é uma "tentativa da assassinato".
Entre as famílias marfinenses, o sentimento é de pânico e de muita tensão. Em contato telefônico com o Estado, as pessoas relataram explosões de bombas durante todo o dia. Troca de tiros e barulhos de mísseis também eram comuns. Muitos contam que estão há dias trancados em casa, racionando comida e temendo ficar sem água caso os confrontos continuem.
Medo da guerra. "Há cinco dias ninguém sai de casa", afirmou ao Estado Serge Kouame, que vive em Abidjã. De acordo com ele, diante do risco de uma guerra civil prolongada, sua família montou uma pequena dispensa com alimentos.
Mas depois de dias fechados em casa e sem ter onde reabastecer, Serge já teme a falta de comida. "Nas ruas, ouvimos falar em saques de supermercados e lojas. Isso não tem qualquer relação com a disputa política. Trata-se apenas de moradores tentando sobreviver", contou.
Gouary Rolande, também moradora de Abidjã, diz que o pânico tomou conta de muita gente. "Estamos com medo e muitos estão em pânico. A ordem é não sair de casa. Isso porque se alguém sai, não sabe se volta."
Força O governo da França enviou ontem mais 150 soldados para a Costa do Marfim. O objetivo é aumentar o efetivo para 1.650 militares e elevar as possibilidades de proteção para os civis na região.
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