Título: Governo tenta defender pisos para o câmbio
Autor: Andrade, Renato ; Simão, Edna
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/04/2011, Economia, p. B1

O anúncio de mais uma medida cambial ontem, quando o dólar esteve prestes a romper a marca de R$ 1,60, evidenciou a estratégia do governo de defender pisos informais para a taxa de câmbio. O padrão é sempre o mesmo: quando o dólar ameaça ultrapassar uma taxa considerada simbólica, a equipe econômica acena com novas medidas e, algum tempo depois, medidas são efetivamente tomadas. Foi assim quando o dólar chegou perto de R$ 1,70, depois de R$ 1,65 e ontem, de R$ 1,60.

Apesar de a medida em si ter sido anunciada somente à noite, o aviso formal foi feito na hora do almoço, quando o dólar estava em queda, a R$ 1,602. De pronto, o mercado virou e a cotação subiu para R$ 1,61. Enfim, o governo age como numa guerra que um país está perdendo, mas tenta garantir o controle de cidades importantes. Ou como um time de futebol que está sendo derrotado mas mesmo assim vai para a retranca para não levar uma goleada.

Isso indica que o arsenal de iniciativas não é mais tão grande e a decisão que está em jogo é se a área econômica parte para ações mais radicais (como controles de capitais pouco amigáveis ao mercado) ou se aceita o destino de valorização do real ante o dólar, apenas atenuando o movimento. Por ora, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, publicamente defende a segunda posição, embora nos bastidores considere a possibilidade de atacar o processo de alta do real com mais intensidade.

A medida anunciada ontem não foi tão forte quanto o mercado esperava. A análise preliminar de operadores e economistas foi de que a extensão do IOF de 6% para o crédito externo de até dois anos mais reforça a iniciativa original, que taxava empréstimos de até um ano.

De qualquer forma, o anúncio de ontem, apenas uma semana depois da ação original, além de tentar defender a cidadela dos R$ 1,60, tenta transmitir um sinal de que Mantega está dando as cartas na estratégia cambial do governo. É que, nos bastidores, começam a ficar mais evidentes as divergências entre o ministro e integrantes da área econômica que preferiam agora deixar o dólar escorregar mais livremente.