Título: Efeito da alta do IOF na prestação é irrisório
Autor: Assis, Francisco Carlos de ; Warth, Anne
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/04/2011, Economia, p. B1
Para especialistas, medida será insuficiente para frear consumo, mas amplia arrecadação
A decisão do governo de dobrar a alíquota do IOF, de 1,5% ao ano para 3%, terá impacto insignificante no valor das prestação de um bem comprado no crediário, segundo o vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Contabilidade e Administração (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira. Nas suas contas, a alta na prestação será de centavos, insuficiente para frear o consumo.
A pedido do Estado, o especialista calculou quanto seria a prestação de uma geladeira, cujo preço à vista é de R$ 1.500, financiada em 12 vezes, com juros 5% ao mês e IOF de 1,5% e com a nova alíquota de 3%. Ribeiro de Oliveira observa que a prestação passaria dos atuais R$ 113,59 para R$ 114,42, com acréscimo de R$ 0,83 por mês. Após 12 meses, o consumidor desembolsará R$ 9,96 por causa do aumento do imposto.
"O consumidor não vai deixar de comprar a prazo por causa do IOF maior", afirma Ribeiro de Oliveira. Ele ressalta que apenas uma redução de prazos poderia reduzir a venda financiada. Outra simulação feita pelo especialista mostra que, se em vez de dobrar o IOF, o governo cortasse pela metade o parcelamento, isto é, de 12 para 6 vezes, a prestação dessa mesma geladeira subiria de R$ 113,59 para R$ 296, com acréscimo de R$ 182,41. "Isso sim teria efeito na contenção do consumo."
Ribeiro de Oliveira ressalta, no entanto, que enquanto os bancos e os consumidores estiverem otimistas com a economia e dispostos a emprestar e comprar, respectivamente, será difícil desacelerar o consumo com medidas localizadas como a adotada ontem pelo governo. "O problema hoje é que as duas partes estão muito otimistas."
Sem estratégia. Já para o economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo, a decisão de ontem de dobrar o IOF para crédito à pessoa física mostra que o governo não tem estratégia clara de como vai desacelerar o consumo. "Isso é ruim para o mercado e para o empresário que precisa trabalhar com um certo grau de previsibilidade para fazer estoques e planejar as vendas."
"Como todo aumento de imposto, a medida vai encarecer o crédito e afetar o consumo", diz Solimeo. Nesse caso, a maior preocupação do economista é com uma provável sobreposição de efeitos das medidas de contenção ao consumo já tomadas desde o início de dezembro do ano passado até hoje, como aumento dos compulsórios dos bancos, elevação da taxa básica de juros e agora a alta do IOF.