Título: Islândia diz não a verba pública para bancos
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/04/2011, Economia, p. B11

População rejeita uso de dinheiro público para compensar holandeses e ingleses que perderam [br]dinheiro nos bancos locais

Enquanto milhares de pessoas saem às ruas das capitais europeias para protestar, é na Islândia que uma revolta de fato ocorreu no fim de semana. A população simplesmente foi às urnas e votou contra o uso de dinheiro público para indenizar bancos. Em 2008, o país foi a primeira vítima da crise internacional. Seus principais bancos faliram e a nação sofreu um colapso financeiro. Agora, coloca banqueiros na prisão e simplesmente vota "não" ao pagamento de resgates.

Durante a quebra do sistema bancário em 2008, a falência de bancos da Islândia acabou causando prejuízos de quase 4 bilhões para Reino Unido e Holanda. Esses países haviam feito empréstimos aos islandeses e, em alguns casos, prefeituras desses países haviam depositado toda sua poupança nos bancos islandeses, atrás de lucros extras.

Com a quebra, o governo da Islândia e os credores chegaram a um acordo para o pagamento de indenizações. Inglaterra e Holanda usariam o dinheiro para compensar seus 340 mil cidadãos que perderam dinheiro depositados nesses bancos.

Mas coube aos 320 mil habitantes da ilha no Ártico exigir que o assunto passasse por um referendo. O resultado, no fim de semana, foi uma rejeição da proposta por 60% dos eleitores. A decisão foi lamentada pela primeira-ministra, Jóhanna Sigurðardótti, que alertou ontem para um "caos político e econômico" diante do resultado da votação. Segundo ela, investimentos não estão entrando no país por conta da confusão em torno do futuro dos bancos.

Agências de classificação de risco devem rebaixar a Islândia, diante do resultado. Mas a população no fim de semana preferiu apenas comemorar. O argumento é de que não foram eles que cometeram os abusos financeiros antes de 2008 e, portanto, não será com seu dinheiro que as dívidas serão pagas.

No Reino Unido, o governo já anunciou que levará a Islândia às cortes internacionais. "Estamos decepcionados", admitiu o número 2 do Tesouro britânico, Danny Alexander. "Esse processo acabará nas cortes."

Alavancagem. A Islândia, um pedaço de gelo e pedra nas proximidades do Ártico, descobriu, na crise de 2008, que sua expansão na última década havia sido baseada em pura alavancagem. Em média, a produção anual de cada habitante havia gerado empréstimos de 10 milhões.