Título: UE gasta uma Argentina em resgates
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/04/2011, Economia, p. B11
Ajuda a Grécia, Irlanda e Portugal deve chegar a 300 bilhões de euros, o equivalente ao PIB argentino, mas ainda há dúvidas se isso será suficiente
Há alguns anos, o economista-chefe do Goldman Sachs Group, Jim O"Neill, criou a sigla Bric para se referir aos países emergentes que cresciam a um ritmo forte, como Brasil, Rússia, Índia e China. O grupo saiu do papel e se transformou em uma realidade política, influenciando decisões globais.
Agora, outra sigla criada pelo mercado começa a se transformar em realidade, ainda que nada positiva: os PIIGS - uma referência à primeira letra de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha (Spain, em inglês). Essas seriam consideradas as economias mais frágeis da zona do euro. No fundo, o que se tornou realidade foi a insustentabilidade das dívidas que atolam a Europa.
A sigla é próxima à palavra "pig" (porco, em inglês), e passou a ser sinônimo de governos que não conseguiam honrar suas dívidas. Por meses, o termo foi alvo de duros ataques por parte desses países, acusando o restante da Europa de manchar suas imagens. Afinal, o Reino Unido também ostenta um nível de dívida parecido, enquanto o déficit americano é duas vezes o da média da Europa.
Mas a realidade venceu. Um a um, os países que fazem parte da sigla estão sendo obrigados a pedir um resgate internacional para não quebrar. Irlanda e Grécia passaram a ser socorridos. Já Portugal inicia nesta semana a negociação com a UE e o FMI.
Quando os três países tiverem sido resgatados, a UE terá gasto o equivalente a todo o PIB argentino, quase 300 bilhões, para evitar uma quebra generalizada. Para disponibilizar esses recursos, a UE exige que os governos europeus promovam políticas de austeridade que incluem a privatização de empresas, redução de salários e corte de empregos.
Se, pouco a pouco, a sigla PIIGS vai ganhando contornos concretos, políticos estão descobrindo que, se suas economias estão sendo salvas, seus governos não estão sendo resgatados.
A Islândia foi a primeira a ver o governo desabar, seguida pela Letônia. O mesmo ocorreu com Irlanda e Portugal. Gordon Brown, louvado como grande administrador por anos, ficou apenas um mandato como primeiro-ministro britânico e perdeu a primeira eleição que disputou, em plena crise.
Na Espanha, o presidente do governo José Luiz Zapatero anunciou que não vai concorrer a um novo mandato. Com um desemprego recorde de 20%, seu país pode não precisar de um resgate da UE, mas vive um mal-estar poucas vezes visto durante o período de democracia.
Mas o custo da crise não é apenas político. Para economistas, os planos de austeridade agravarão ainda mais a crise econômica. "Estamos cavando nossos túmulos. O que a Europa precisa é reequilibrar a relação entre suas economias", defendeu Heiner Flassbeck, ex-vice-ministro alemão e hoje economista na ONU. "Nem políticas de austeridade e nem um mecanismo de resgate serão a solução para a Europa."
Reformas. A oposição na Alemanha - país que acaba pagando mais pela conta dos erros do bloco - é uma das que defende novas leis. A UE estabeleceu um teto de 3% do PIB para seus déficits. Desde 1992, quando foi estabelecido, o teto foi violado 97 vezes. E nada ocorreu contra esses governos. Dar um pacote de resgate, portanto, premiaria aqueles que não cumpriram as leis e apenas adiaria os problemas.
Para muitos, a crise na Irlanda é o maior exemplo de que a crise não termina com o resgate. Depois de receber US$ 119 bilhões da UE e do FMI no ano passado, o país teve de pedir um extra de US$ 50 bilhões há duas semanas para salvar seus bancos.
Sindicatos também alertam que os resgates não solucionarão os problemas dos trabalhadores. Isso porque eles são acompanhados por condições drásticas de corte de salários, de postos de trabalho na administração pública e nos investimentos sociais.
Em Portugal, o governo tentou passar no Parlamento seu quarto pacote de redução de gastos em apenas um ano. Foi derrotado e caiu. Agora, a UE anunciou que exigirá de Lisboa um plano de austeridade ainda mais duro que o que o governo de José Sócrates propunha. Uma greve geral no país já foi convocada para o dia 6 de maio.
PARA ENTENDER
O governo de Portugal lançou uma série de iniciativas para obter fundos externos e garantir que sua dívida fosse honrada. Na quinta-feira, Portugal enviou o pedido de resgate tanto para o fundo da União Europeia quanto para o FMI. O objetivo de Lisboa era obter um financiamento imediato, enquanto o pacote de ajuste era negociados. No dia seguinte, os ministros de Finanças da UE se reuniram e determinaram que Portugal ganharia um só pacote, de cerca de 80 bilhões - do fundo da ue viriam 60 bilhões e o restante, do FMI. Mas tanto o FMI quanto a UE frustraram a estratégia de Portugal de obter um empréstimo provisório: exigiram antes um amplo pacote de corte de gastos e de privatizações.