Título: Armas inadequadas e antigas reduzem chance de triunfo dos rebeldes líbios
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Fonte: O Estado de São Paulo, 22/04/2011, Internacional, p. A10

Arsenal obsoleto das forças que combatem Kadafi, além da falta de experiência e disciplina dos insurgentes, dificulta a missão de depor o ditador; algumas metralhadoras e fuzis já não têm nem mesmo peças de reposição

A metralhadora russa PKT, a italiana Carcano e a francesa MAT-49 estão entre as armas usadas pelos rebeldes líbios que, na prática, têm pouca ou nenhuma utilidade. Projetada para ser disparada de dentro de um tanque, a PKT não tem gatilho, mas é usada por muitos combatentes. O mesmo acontece com a Carcano e a MAT-49, armas antigas, sem peças de reposição. Quem a utiliza seria mais perigoso com uma funda e uma pedra.

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Uma pesquisa sobre as armas carregadas por centenas de rebeldes que lutam em duas frentes - no leste da Líbia e na cidade cercada de Misrata - descreve o quadro de um levante armado que não está devidamente equipado em matéria de armamentos, com um arsenal desprovido de utilidade.

Além disso, os rebeldes têm armas que, se vendidas, perdidas ou usadas indevidamente, poderão comprometer a reputação da sua revolução e sua própria causa. Elas incluem mísseis antiaéreos e minas terrestres, que representam ameaças à segurança regional a longo prazo.

Há também armamentos pesados - foguetes Type 63 e Grad - que os dissidentes disparam indiscriminadamente, pondo em risco a população e a infraestrutura civil.

Mal armados. O arsenal dos rebeldes, sua inexperiência e falta de disciplina estão tornando o objetivo militar da revolução extraordinariamente difícil. Há mais voluntários do que fuzis. No cerco a Misrata, muitos rebeldes no fronte não têm arma nenhuma, e esperam que um amigo caia para entrar na luta. Os que dispõem de um arsenal mais moderno não têm condições de lidar com armas que exigem um treinamento diferente, ou precisam de outros tipos de munição, ou ambas as coisas.

Os combatentes insistem que têm determinação para vencer as forças leais a Kadafi, mas precisam dos meios adequados. Essa determinação ficou clara nas palavras de Fikry Iltajoury, de 31 anos, que lutava recentemente com apenas uma grande faca de açougueiro. O caminhão e a metralhadora que utilizava foram destruídos. "Fomos atingidos e meus amigos morreram. Perdi minha arma, mas tenho isto. Quero enfiá-la no coração de Kadafi", disse, mostrando a faca, com a lâmina serrilhada e o cabo de madeira.

A oposição também carece de munição e peças sobressalentes, principalmente em Misrata. Mas se a escassez é inequívoca, assim como os riscos de distribuir armas a uma força deste tipo, que carece de disciplina e experiência.

Aspectos táticos e técnicos do emprego de armas não são devidamente valorizados, e os rebeldes menosprezam, ou talvez ignoram, convenções internacionais. Os dissidentes líbios têm uma noção limitada do manuseio de armas modernas de maneira a maximizar sua eficiência, minimizando ao mesmo tempo os riscos para os outros.

Abusos. Além disso, os rebeldes têm pouco controle e nenhuma norma clara para o recrutamento, fatores que talvez contribuíram para casos de conduta abusiva ou absolutamente brutal.

Há relatos confiáveis de rebeldes que espancam e roubam africanos suspeitos de serem mercenários. No dia 9, dois jornalistas observaram oposicionistas capturar e matar um suspeito de ser informante de Kadafi.

Os países que fornecem armas a essas forças sem lei poderão ser acusados mais tarde de estimular ou permitir esse tipo de crimes.

A oposição tem mostrado também o que parece ser uma tolerância por pelo menos um pequeno número de crianças soldados. Foi o caso de Mohamed Abdulgader, um menino de 13 anos visto em um posto de controle avançado, no início deste mês, com um rifle de assalto nas mão.

Mohamed disse que não combatia no fronte, mas estava numa área que no prazo de uma hora foi bombardeada, e deixou clara sua disposição a lutar.

"Se os de Kadafi tentarem fazer alguma coisa comigo, vou atirar neles", disse.

Riscos. Os rebeldes conseguiram também armas perigosas, como foguetes de 107 milímetros lançados sobre picapes, suportes de foguetes Grad de 122 milímetros e lançadores de foguetes ar-terra de 57 milímetros retirados de antigos helicópteros de ataque de Kadafi. Jornalistas viram estas munições altamente explosivas serem disparadas repetidamente, e em geral de maneira desordenada.

Os soldados que as disparam não têm comunicação com os observadores na linha de frente que poderiam indicar onde a artilharia atinge, e não mostraram a menor habilidade em ajustar a mira. Em termos táticos, trata-se de fogo indiscriminado - o comportamento que rebeldes e civis criticaram asperamente nas forças de Kadafi -, embora em escala menor. Além disso, eles possuem minas terrestres, que, se usadas sem responsabilidade, poderão comprometer a busca de apoio internacional.

Observar os rebeldes líbios indo para a batalha é assistir a jovens que pediam liberdade caminharem para morte. Armá-los, equivale a assumir outros riscos, muitos dos quais poderão aparecer somente nos próximos anos.

Fronteira com a Tunísia Rebeldes líbios afirmaram ontem que assumiram o controle de um posto na fronteira com a Tunísia, em um raro avanço contra as tropas do regime do coronel Muamar Kadafi. A passagem de Wazin, no oeste do país, foi ocupada após três dias de confrontos.