Título: Alta do IOF puxa crédito de longo prazo
Autor: Veríssimo, Renata ; Graner, Fabio
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/06/2011, Economia, p. B1

Financiamentos para a economia brasileira deixaram de ser de curto prazo, mostra BC

O crédito externo para a economia brasileira migrou do curto para o longo prazo, como resultado da elevação para 6% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nos financiamentos com prazos de até dois anos. Embora já estivesse ocorrendo em abril, o movimento ficou ainda mais evidente pelos dados das contas externas do mês de maio.

Essa trajetória levou o Banco Central (BC) a fazer significativas revisões nas suas previsões de fluxo de empréstimos externos para o País. A expectativa do BC para o ingresso de recursos decorrente de créditos de longo prazo em 2011 saltou de US$ 49,8 bilhões para US$ 71,9 bilhões. Enquanto isso, a projeção para as operações de curto prazo despencou de US$ 27 bilhões para apenas US$ 5,5 bilhões.

As alterações nas projeções relativas aos financiamentos externos foram as mais significativas de toda a revisão que o BC faz trimestralmente em seu cenário para as contas externas.

Segundo o chefe do departamento econômico do BC, Túlio Maciel, os números do ano, até maio, mostram que as operações de empréstimos tradicionais de curto prazo passaram de uma média mensal de US$ 2,32 bilhões no primeiro trimestre para um saldo negativo de US$ 2,17 bilhões em maio, depois de já ter trabalhado no vermelho também em abril. Já as operações de longo prazo passaram de uma média mensal de US$ 1,41 bilhão no primeiro trimestre para US$ 3,29 bilhões em maio.

Longo prazo. O movimento vai na mesma direção quando se consideram operações de emissões de títulos, com saída de recursos que estavam classificados como de curto prazo e expansão para a rubrica de longo prazo. "Houve um alongamento das dívidas a partir do IOF. Os empréstimos de curto prazo cessaram e no longo prazo, aumentaram", disse Maciel.

O diretor de pesquisas da associação Brain, André Sacconato, concorda que o movimento mostra a eficácia da medida que elevou para 6% o IOF sobre captações de curto prazo. Ele afirmou que o alongamento de prazos não impede que esses recursos saiam a qualquer momento do País, movidos por algum ímpeto especulativo (embora isso tenha um custo maior).

De qualquer forma, Sacconato salientou que a migração de operações de curto para o longo prazo, ocorrendo em um ambiente internacional adverso, ainda que tenha sido induzida por uma medida governamental, mostra que os investidores estão bastante confiantes no Brasil. "Não houve debandada de financiamentos da economia brasileira. Em tese, a composição do endividamento até melhorou", disse.

Os dados do BC sobre a dívida externa do País referendam essa percepção. Na comparação com março, última posição consolidada, a parcela de curto prazo da dívida externa caiu, segundo estimativa do BC, pouco mais de US$ 7 bilhões, enquanto a de longo prazo teve aumento de cerca de US$ 15 bilhões. No total, a dívida externa subiu de US$ 275,95 bilhões em março para US$ 284,07 bilhões no resultado estimado para maio.

O BC informou que os desembolsos de créditos de longo prazo superaram os vencimentos de maio e também no ano. A taxa de rolagem está tão forte até maio que fez o BC elevar de 150% para 410% a projeção para o indicador em 2011. De janeiro a maio, o indicador ficou em 498%. Segundo Túlio Maciel, "pode-se intuir" que parte pequena desse índice - que considera operações com prazo acima de um ano - refere-se a créditos com vencimentos menores do que 720 dias, prazo mínimo pra não ser cobrado o IOF.

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