Título: Fed recua em novas medidas e bolsas caem
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/07/2011, Economia, p. B12

Ameaça da Moody's de rebaixar a nota dos EUA também assustou investidores

Os mercados dos Estados Unidos foram agitados ontem pelo recuo do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sobre uma nova injeção de dólares na economia americana, como forma de dar maior impulso ao crescimento.

A consequente queda generalizada nos índices das bolsas de valores e a busca por ativos mais seguros, como o ouro, foram motivadas também pela advertência da agência Moody"s, na noite de quarta-feira, de estar preparada para reduzir a qualificação de risco dos EUA se o teto da dívida pública - atualmente em US$ 14,3 trilhões - não for elevado até 2 de agosto. A dificuldade do governo de Barack Obama em superar os impasses com a oposição para alcançar um acordo na área fiscal contribuiu para esse cenário de recuo no investimento.

No fechamento dos mercados, o preço do ouro subiu 0,4% e alcançou US$ 1.588,06 a onça (31,1 gramas), depois de ter atingido a cifra recorde de US$ 1.594,16 horas antes. No mercado futuro para entrega em agosto, chegou a US$ 1,588,90. A cotação do petróleo caiu 2,41%, para US$ 95,69 o barril, na New York Mercantile Exchange. No mercado acionário, a média do índice Dow Jones Industrial caiu 0,29% ou 36,40 pontos. O índice S&P 500 recuou 0,52% ou 6,81 pontos, e o da Nasdaq, 1,15%.

A reação negativa seguiu-se às declarações do presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), Ben Bernanke, no Comitê de Bancos do Senado, em seu segundo dia de audiências no Congresso. Bernanke afirmou não estar o Fed "preparado neste momento para tomar mais ações", ao ser indagado pelo presidente do comitê, senador Tim Johnson, se novo programa de expansão monetária seria posto em prática de imediato. No dia anterior, na Câmara, o presidente do Fed havia sinalizado com a medida, caso os indicadores econômicos piorassem.

"Você pode estar completamente correto: isso (as novas medidas de injeção de dólares) pode não ser necessário e pode não ser particularmente efetivo, dada a configuração dos problemas enfrentados", explicou. "Essas são algumas coisas para levarmos em conta. Nós não estamos propondo nada hoje", completou Bernanke, para quem a situação atual "é mais complexa".

Segundo o presidente do Fed, há incerteza sobre o comportamento da inflação e da taxa de desemprego, hoje em 9,2%. Embora a taxa de inflação esteja próxima da meta definida pelo Fed, ainda há riscos de deflação.

Além disso, conforme alertara anteontem na Câmara, a concentração do ajuste fiscal no corte de despesas públicas resultará inevitavelmente em efeitos devastadores para o sistema financeiro americano e a economia mundial. "Estamos incertos sobre o desenvolvimento da economia em curto prazo. Gostaríamos de ver se, de fato, a economia crescerá como projetamos."

Novo sinal. As declarações de Bernanke gelaram os investidores, que haviam lido em seu discurso da quarta-feira um sinal claro da intenção de retomar as medidas monetárias de recuperação da economia. Em especial, porque a possibilidade de adoção de medidas fiscais é nula. No primeiro semestre, o Fed colocou em ação o Quantitative Easing 2 (QE2 ou afrouxo quantitativo), um mecanismo para a compra de US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro. Entre novembro de 2008 e março de 2010, por meio do QE1, havia injetado US$ 1,7 bilhão na economia do país.

Em sua reunião no fim de junho, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) havia decidido não prorrogar a iniciativa. Mas alguns de seus participantes alertaram durante a reunião para a necessidade de retomá-la, "especialmente se o crescimento econômico continuar muito lento para reduzir significativamente a taxa de desemprego".

Ontem, o mercado americano já havia aberto com a ameaça da Moody"s de rebaixar a nota dos EUA. As negociações entre a Casa Branca e as lideranças republicanas do Congresso sobre esse tema estão atreladas a um pacote mais amplo - a redução dessa dívida em até US$ 4 trilhões nos próximos dez anos. Além de indicar uma tendência a ser seguida pelas suas concorrentes, a advertência da Moody"s coloca mais pressão sobre os negociadores do pacote de redução de dívida.