Título: Região engloba seis países da Australásia
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Fonte: O Estado de São Paulo, 31/07/2011, Vida, p. A28

Se os recifes de coral são as "florestas do oceano", como dizem os biólogos, o Triângulo dos Corais é a Amazônia dos recifes. Grande, denso e com quantidade de vida tão intensa que chega a desorientar. Em alguns momentos, a sensação de mergulhar nessa região é semelhante à de voar sobre a Amazônia, mas com peixes no lugar das aves e corais no lugar das árvores, estendendo-se, como um tapete vivo, em todas as direções.

A comparação é justa, do ponto de vista científico, e até poderia ser invertida, do ponto de vista cronológico, considerando que a vida começou nos mares e os recifes são mais antigos que as florestas. "Eu diria que a Amazônia é que é o Triângulo dos Corais na superfície", argumenta o biólogo Robert Lasley, que estuda caranguejos na região.

Com quase 6 milhões de quilômetros quadrados, área equivalente a 70% do território brasileiro, o Triângulo dos Corais inclui seis países: Indonésia, Filipinas, Papua-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Timor-Leste e parte da Malásia.

Um universo marinho pontuado por ilhas e milhares de quilômetros quadrados de recifes de coral que, com manguezais e outros hábitats costeiros, abriga a maior variedade de espécies marinhas da Terra. Só de corais, há mais de 600 espécies registradas - 75% do total mundial. No Caribe, há 58.

"Aqui no triângulo é assim. Os números são tão grandes que chegam a assustar", brinca Ketut Putra, diretor executivo da ONG Conservação Internacional na Indonésia. Pergunto a ele quantas espécies de peixes recifais são conhecidas na região. Resposta: 1.125. "Em todo o triângulo?", pergunto novamente, para ter certeza. "Não, só aqui em Bali (uma das ilhas da Indonésia)", esclarece Ketut, gargalhando de felicidade. No triângulo todo, são cerca de 2,5 mil.

Chris Meyer, do Instituto Smithsonian, estima que a biodiversidade total do triângulo - incluindo todos os grupos animais - é de 300 mil a 500 mil espécies, o que representaria entre 30% e 50% de toda a biodiversidade marinha do planeta, segundo a estimativa de 1 milhão de espécies feita pelo Censo da Vida Marinha. "Eu diria no mínimo um terço, com certeza", argumenta Meyer.

O estado de saúde dos recifes também é semelhante ao da floresta amazônica. "Muito já foi destruído, mas há muito ainda para ser salvo", resume a bióloga Lida Pet Soede, líder do Programa Triângulo dos Corais da rede WWF.

Segundo o último relatório Reefs at Risk, do World Resources Institute, os recifes do Sudeste Asiático são "os mais ameaçados do mundo". As mesmas regiões que aparecem em publicações científicas com grandes manchas vermelhas, representando as mais altas concentrações de biodiversidade, aparecem igualmente vermelhas nos mapas do relatório, representando os mais altos graus de ameaça.

Uma realidade que não é óbvia. À primeira vista, os recifes do triângulo parecem esbanjar saúde, com uma diversidade e abundância alucinante de corais, esponjas, peixes, moluscos e outros invertebrados. Sob o olhar atento dos pesquisadores, porém, sinais preocupantes começam a aparecer. O mais óbvio é a escassez de grandes predadores, como tubarões e garoupas, vítimas do excesso de pesca.

"Foi assim que começou no Caribe (onde a cobertura de coral vivo já foi reduzida em 80%)", alerta o biólogo Seabird McKeon, do Instituto Smithsonian. "Os mesmos sinais que os cientistas viram lá nas décadas de 1960 e 1970 estão começando a aparecer aqui." "Os recifes estão impactados, sim. Dá para ver a marca do ser humano", diz Nancy Knowlton, também do Smithsonian. "Tudo ainda parece lindo, mas é só porque estamos no Triângulo dos Corais."

Várias iniciativas estão em curso para evitar o pior e, quem sabe, recuperar o que foi perdido. Tanto por parte de ONGs e cientistas quanto de governos e comunidades tradicionais, que reconhecem a importância dos recifes para a manutenção do turismo, dos estoques pesqueiros e da cultura local. Se o Triângulo dos Corais terá o mesmo destino do Caribe ou da Amazônia, só o tempo dirá.