Título: Contra a crise da dívida, os EUA têm uma opção: crescer
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/08/2011, Economia, p. B1-7
Há apenas 11 anos, país encerrou o ano fiscal com superávit recorde de US$ 236,4 bilhões; hoje tem o maior déficit, de US$ 1,6 trilhão
Mike Segar/Reuters¿29/7/2011Saída. Expansão: alternativa para contornar a crise financeira Não faz muito tempo, o Relógio da Dívida Nacional, erguido acima da Avenida das Américas, um quarteirão a leste de Times Square, estava andando para trás. Isso parece notável agora, com toda a conversa de fim do mundo sobre dívida, mas foi há meros 11 anos que os donos daquele totem eletrônico, a família Durst, puxaram a tomada.
O relógio, instalado desde 1989, ficou escuro depois que o governo federal encerrou seu ano fiscal de 2000 com um superávit orçamentário recorde de US$ 236,4 bilhões.
Hoje, bem... vocês sabem. Enfrentamos o maior déficit orçamentário que o país já conheceu: US$ 1,6 trilhão, equivalente a cerca de 11% de nossa economia. E, faça Washington o que fizer, muitos economistas dizem que a situação só se agravará, particularmente à medida que os americanos envelhecerem e os custos do Medicare crescerem em espiral.
Mas existe, em teoria, uma solução feliz para nossos problemas com a dívida. Ela se chama crescimento econômico. Não é preciso aumentar impostos ou cortar programas. Basta colocar a economia em crescimento.
Boa sorte nisso. O crescimento anda escasso hoje em dia como bem mostram os novos números decepcionantes revelados sexta-feira. Dados revisados revelaram que a recessão deu uma mordida ainda maior na economia do que pensávamos. E os economistas estão avaliando os riscos de outra recessão.
"A questão básica é que os Estados Unidos seguem num curso fiscal insustentável", diz Dean Maki, economista-chefe do Barclays Capital. "Deste ponto em diante, nenhuma das escolhas será divertida." As escolhas mais óbvias, diz Maki, são reduzir gastos (ai!), elevar impostos (eca!), deixar a inflação crescer (suspiro) ou o default (baque).
Não precisaríamos de nada disso se pudéssemos restaurar o crescimento econômico. Se isso ocorresse, os americanos ficariam mais ricos e pagariam mais impostos. Et voilà! - pagaríamos a dívida sem dor.
Antes de sua economia desmoronar, a Irlanda era uma estrela da redução da dívida. Nos anos 80, a dívida encolheu sua economia. Nas duas décadas seguintes, porém, a dívida encolheu a cerca de um quarto do Produto Interno Bruto, em grande parte porque a economia cresceu espetacularmente.
Os Estados Unidos também fizeram o mesmo no passado. Após a 2.ª Guerra, a dívida bruta federal alcançou 122% do PIB, a maior porcentagem da história americana. Nos 40 anos seguintes, porém, caiu para cerca de 33%. Isso não ocorreu porque algum conselho de figurões prescreveu a austeridade; ocorreu porque a economia americana se tornou muito mais rica.
O mesmo ocorreu nos anos 90, que começaram com déficits e terminaram com superávits. O ex-presidente Bill Clinton recebe o mérito pela reviravolta pelas alíquotas fiscais mais altas. Mas a maioria dos economistas atribui os anos de superávit principalmente ao crescimento extraordinariamente rápido.
Seria adorável repetir essa experiência. Mas a estrutura dos gastos americanos é diferente do que era, por exemplo, nas décadas seguintes à 2ª Guerra. Naquela época, o crescimento ajudou a eliminar a dívida. Mas nos anos 50 os Estados Unidos não tinham o Medicare. A população era mais jovem e os americanos não viviam tanto.
Com as obrigações de gastos com saúde que enfrentamos, e a dívida pendente com a qual já estamos lidando, as taxas de crescimento teriam de adquirir alta velocidade para servir. E, no curto prazo, mesmo uma velocidade modesta é improvável.
Geralmente, após uma recessão, o crescimento retoma rapidamente e a economia recupera o terreno perdido - e avança. Não é esse o caso desta vez, ao menos por enquanto. Nos 60 anos anteriores à Grande Recessão, a economia se expandiu numa taxa média anual de 3,5%. No segundo trimestre deste ano, cresceu menos da metade disso.
Essas calmarias não durarão para sempre, mas muitos preveem que o crescimento será um pouco mais lento do que era antes da recessão, por muitas das mesmas razões pelas quais nossa dívida está crescendo tão rapidamente - o envelhecimento da população, por exemplo.
Embora possa ser difícil ou impossível sairmos da dívida pelo crescimento, os números do PIB anunciados na sexta-feira sugerem que poderíamos muito possivelmente estar reduzindo o nosso caminho à bancarrota. As medidas de austeridade que o Congresso está debatendo quase certamente desacelerarão ainda mais o crescimento. Isso, por sua vez, poderá agravar o problema da dívida - o exato oposto do que seus proponentes sugerem.
Os economistas concordam que, no longo prazo, a disciplina fiscal é boa para o crescimento, Quando o orçamento está em ordem, o país não é sobrecarregado pelo ônus de pagar benefícios crescentes. As companhias podem se preocupar menos com ser surpreendidas por, digamos, impostos mais altos, e contratar novos trabalhadores,
Uma dívida federal mais manejável também ajuda a manter baixas as taxas de juros, o que é geralmente bom para o crescimento. E, de novo, o que é bom para o crescimento é geralmente bom para o endividamento.
O problema é que reduzir gastos ou aumentar impostos agora prejudicaria uma economia já fragilizada. Outra recessão não só seria dolorosa para os americanos comuns como agravaria o problema da dívida com a redução da arrecadação fiscal. Não acreditam? Considerem o seguinte: dos US$ 12,7 trilhões de dívida adicional acumulada na última década, cerca de um terço veio da fraqueza econômica.
Na Grande Depressão, Washington apertou o cinto com resultados desastrosos. O Congresso reduziu os gastos severamente em 1937, jogando a economia novamente no buraco. No fim das contas, provocou um endividamento ainda maior.
Hoje, Wall Street teme que os EUA percam sua classificação AAA, haja o que houver em Washington. O problema, é claro, é de credibilidade, o que as agências de classificação têm pedido. Será que Washington as seguirá? O Congresso vem prometendo disciplina fiscal há décadas, só para desfazer suas promessas. A disciplina fiscal é dolorosa, impopular e, na Washington de hoje, tão ilusória quanto a prosperidade que um dia tivemos.
William Easterly, economista do desenvolvimento da Universidade de Nova York, nota que países que empreendem uma consolidação fiscal no meio de uma crise - como Washington está fazendo agora - tendem a ser econômicos nas coisas pequenas e perdulários nas grandes.
Por exemplo, nas crises da dívida dos anos 80 na América Latina, muitos países da região cortaram em alvos fáceis como telecomunicações e transporte. Essas decisões mais tarde obstruíram a capacidade do país de funcionar e de coletar os impostos de que precisavam para honrar seus compromissos.
Por outro lado, o paradigma de uma consolidação fiscal ponderada e voltada ao crescimento é o Canadá, segundo Paolo Mauro, chefe de divisão do Fundo Monetário Internacional.
Em vez de tomar decisões sob a mira de um canhão, o Canadá empreendeu, em 1994, uma revisão abrangente dos seus gastos federais ao longo de um ano para determinar "se eles estavam recebendo valor pelo dinheiro, em vez de simplesmente fazer cortes generalizados", diz Mauro.
As autoridades telegrafaram suas conclusões e planos de médio prazo para reformas, e posteriormente reduziram o nível da dívida canadense de uma das maiores do Grupo dos Sete para a menor. Como o Canadá cortou a gordura federal judiciosamente, ele reduziu sua dívida sem muitos danos ao crescimento.
As autoridades americanas poderiam aprender algumas coisinhas com os cortes pacientes e sem histeria do Canadá, pelo menos assim que outro relógio - o da contagem regressiva para o rebaixamento ou default dos Estados Unidos - pare de funcionar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK