Título: Documento acirra briga entre Air France e Airbus
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/07/2011, Metrópole, p. C1

Empresas trocam acusações; famílias acreditam que texto só comprova culpa de ambas no episódio

Uma guerra de versões sobre as razões da queda do voo 447 em 31 de maio de 2009 está declarada entre Air France e Airbus. Ainda que nas aparências as duas empresas sigam cordiais, as direções de ambas travam uma batalha para empurrar a culpa pela tragédia e pela morte dos 228 passageiros e tripulantes. Enquanto o discurso do fabricante reitera que "não há mais dúvidas" sobre a culpa dos pilotos, a companhia aérea frisa que ao longo dos três minutos de queda o trabalho dos pilotos foi dificultado por informações eletrônicas contraditórias.

Ao Estado, um executivo da Airbus afirmou que o relatório do Escritório de Investigação e Análise para a Aviação Civil (BEA) é cristalino sobre a suposta responsabilidade da tripulação - ainda que a direção do escritório afirme que não tem provas sobre o assunto. "Nós sempre dissemos que havia algo além da falha das sondas de velocidade. Elas foram o evento de origem, é verdade, mas há bem mais do que isso", diz o executivo.

Já a Air France mantém o discurso oposto. Em nota oficial, a empresa afirmou que a queda do 447 foi causada "por uma combinação de múltiplos elementos improváveis que conduziram à catástrofe em menos de 4 minutos". A companhia aérea cita então o congelamento dos sensores de velocidade - os tubos pitot - e a "perda da proteção de pilotagens associadas". "Em um ambiente de pilotagem degradado e desestabilizador, o aparelho perdeu sustentação em alta altitude, não pode ser recuperado e atingiu a superfície do Oceano Atlântico em grande velocidade", diz a empresa, que ainda elogiou a atuação dos pilotos.

Famílias. Para o presidente da Associação de Parentes das Vítimas do Voo 447 da Air France, Nelson Faria Marinho, o valor das indenizações para as famílias deve subir, pois, além da falha das sondas medidoras de velocidade (pitots) do avião da Airbus, a falta de treinamento dos pilotos da Air France contribuiu para a tragédia.

Logo, as duas empresas serão responsabilizadas. "Se o avião cai por causa de um rio, a indenização é fixada por conta da morte causada por uma fenômeno natural. No entanto, se os pilotos não são treinados e um equipamento falha, a punição tem de ser severa para as duas empresas, para que elas tomem providências e não aconteça outra tragédia."