Título: Mercados enfrentam teste de estresse
Autor: Chade, Jamil ; Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/08/2011, Economia, p. B1

Bolsas de valores asiáticas já abriram em baixa hoje como reflexo do rebaixamento da nota da dívida norte-americana pela S&P

O rebaixamento das notas de risco dos Estados Unidos pela agência Standard & Poor"s, anunciado na sexta-feira, teve seu primeiro teste no mercado financeiro. A bolsa de Tóquio abriu em queda de cerca de 1%, atingindo o nível mais baixo desde 18 de março. As bolsas de Hong Kong, Xangai, Seul, Taiwan, Malásia e Cingapura também abriram em queda - depois de uma semana em que as bolsas do mundo inteiro viveram as piores turbulências desde o estouro da crise, em 2008.

Os contratos futuros de petróleo tiveram forte queda no começo dos negócios na Ásia, com investidores liquidando posições especulativas após a decisão da Standard & Poor"s. O rebaixamento evidenciou temores de que o consumo de petróleo nos EUA está diminuindo, ao mesmo tempo em que a China adota medidas de aperto monetário para desacelerar sua economia e controlar a inflação.

"Qualquer fato que traga a ideia de juros mais altos (nos EUA) tende a se traduzir em projeções de quedas ainda maiores na demanda por petróleo. Isso, por sua vez, leva a liquidações adicionais de posições compradas em petróleo", disse Jim Ritterbusch, presidente da consultoria Ritterbusch & Associates. Ele acredita que os preços ficarão abaixo do nível de sexta-feira quando os mercados americanos abrirem hoje.

As bolsas de valores dos EUA devem dar vazão hoje ao trauma causado pelo rebaixamento da avaliação de risco do crédito americano de longo prazo. Ontem, autoridades da S&P defenderam a decisão, cuja credibilidade foi contestada pelo governo americano em função de um erro de cálculo de US$ 2 trilhões, em programas dominicais de televisão. Ao mesmo tempo, dois economistas consagrados apontaram o risco de uma nova recessão no país, empurrada pela redução da nota dos EUA e pela crise europeia.

Ao contrário dos dois domingos anteriores, quando o próprio presidente dos EUA, Barack Obama, fez pronunciamentos públicos para acalmar a abertura dos mercados acionários na Ásia, ontem a Casa Branca manteve-se calada. A única exceção foi a notícia de sua boa receptividade à decisão do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, de manter-se no cargo durante todo o período de campanha eleitoral de 2012. A iniciativa foi uma reação direta à oposição republicana, que exigira sua demissão depois da medida da S&P.

A permanência de Geithner deverá repercutir no movimento das bolsas de valores, assim como o próprio rebaixamento da nota dos EUA, já esperado pelos mercados em função das indicações anteriores da S&P. As bolsas devem oscilar também sob o peso das discussões dos ministros de Economia do G7, em uma conferência de emergência por telefone na noite de ontem, e de novas projeções para a atividade americana, depois do rebaixamento.

Ontem, o ex-conselheiro chefe de Obama para a área econômica, Lawrence Summers, advertiu na CNN para o risco de uma nova recessão e atacou a tomada de decisão pela S&P em um momento de debilidade da economia americana. Para ele, o momento exigirá maior foco dos líderes na aceleração do ritmo da atividade.

Recessão. No programa dominical da NBC, o ex-presidente do Federal Reserve (banco central Americano), Alan Greenspan, afirmou não acreditar em uma recessão em curto prazo, mas admitiu ser inevitável uma lentidão ainda maior no crescimento da atividade.

Summers criticou duramente o erro de cálculo da S&P e argumentou não haver ameaça de os EUA não cumprirem seus compromissos da dívida. Porém, no programa concorrente, o presidente do comitê de rating soberano da S&P, John Chambers, insistiu na "mensagem bastante consistente" emitida pela agência, ao rebaixar a nota de crédito. A recuperação da nota máxima, segundo ele, exigirá a estabilização da relação entre a dívida federal e o Produto Interno Bruto e a melhoria na capacidade de consenso bipartidário em Washington.