Título: Um fim de semana tenso
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/08/2011, Economia, p. B1

No fim de semana, a sede do governo italiano foi transferida de Roma para Frankfurt. Vazada ontem à imprensa italiana, uma carta secreta revelou que, para ser resgatado, o premiê Silvio Berlusconi simplesmente aceitou um programa de governo inteiro elaborado pelo Banco Central Europeu (BCE), com sede na Alemanha. Sem o plano, o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, recusava-se a liberar recursos para Roma.

A carta ao líder italiano foi apenas um dos episódios mais dramáticos de um fim de semana de forte tensão para evitar uma quebra nas bolsas e garantir a estabilidade do continente. O prazo para obter isso era limitado. A União Europeia (UE) teria até 1h30 de segunda-feira para chegar a um acordo, antes de o pregão de Tóquio abrir.

Desde sexta-feira, líderes europeus disparavam telefonemas entre capitais para debater o que fariam em relação à Itália - considerada o próximo alvo dos mercados, por causa de sua dívida de 120% do PIB. A Alemanha e grande parte do BCE não aceitavam a ideia do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, de ampliar o fundo de resgate da UE. Outra alternativa seria a compra de títulos da dívida da Itália. Mas Berlim também resistia à ideia, alegando que ela seria na realidade um resgate camuflado. Para liberar o dinheiro, exigia reformas reais de Berlusconi para acabar com o déficit, não apenas promessas vagas.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel, telefonaram então para Jose Luis Rodriguez Zapatero, premiê espanhol, e para Berlusconi. No mesmo dia, Roma anunciou um programa de cortes e a Espanha prometeu acelerar a adoção de medidas de austeridade.

Mas isso não ocorreu por acaso. Descobriu-se depois que, enquanto Paris e Berlim pressionavam Berlusconi a agir, o BCE enviou a carta secreta a Roma com o receituário completo e detalhado do que deveriam fazer se de fato quisessem os recursos do banco. O "programa de governo" chega a dizer quais mecanismos o governo de Roma deve usar para cada medida, como decretos e projetos de lei. Na prática, o BCE exigiu uma liberalização no mercado laboral italiano, a adoção de uma modelo de extrema flexibilidade para o emprego jovem, a venda de ativos do estado e privatizações aceleradas. Bens e empresas pertencentes a municípios italianos também deverão ser vendidos.

Mas a cobrança não recaiu apenas sobre a Itália. No domingo, o BCE ainda exigiu uma posição clara da Alemanha e a promessa de que Berlim não vetaria a criação do fundo europeu. Foi nesse momento que Sarkozy e Merkel viram-se obrigados a emitir um comunicado de imprensa garantindo que o fundo europeu seria ratificado até setembro.

Teleconferência. Faltavam poucas horas até a abertura do pregão de Tóquio. Com a equação italiana fechada, restava chegar a uma posição comum com os governos do G7. Às 23 horas de domingo, uma teleconferência foi iniciada com os BCs e ministros de Finanças das potências. A presidência francesa passou a palavra ao secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, e ao presidente do Fed, Ben Bernanke. Ambos tentaram tranquilizar os demais governos de que apenas uma das empresas de rating rebaixaria a nota dos EUA. Os americanos também fizeram lobby para evitar que as potências vendessem seus títulos do tesouro americano.

O próximo a tomar a palavra foi Trichet. Ele que havia conseguido convencer a direção do BCE a voltar a comprar papéis da dívida da Itália e da Espanha. Trichet foi seguido pelo comissário de Economia da UE, Olli Rehn, que expôs os planos de reforma em Madri. A reunião foi concluída pelo ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaueble. Irritado com o BCE, ele pediu que a independência dos governos europeus fosse respeitada. Ainda assim, deu seu sinal verde para blindar Itália e Espanha.