Título: Mercados só estão se ajustando a uma recuperação fraca
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/08/2011, Economia, p. B1
Agora, uma recuperação requer mais estímulo monetário, especialmente nos Estados Unidos, afirma economista
ENTREVISTA
Kenneth Rogoff, economista
Os temores de um duplo mergulho na recessão aumentaram após este tumulto que se verifica nos mercados de ações e o rebaixamento dos Estados Unidos. Nesta entrevista, o economista de Harvard, Kenneth Rogoff, critica o presidente Barack Obama por ter cedido ao Tea Party nas negociações sobre o teto da dívida e afirma que a zona do euro precisa se tornar uma "união de transferências".
Com a turbulência que se verifica nos mercados acionários globais, o mundo está diante de um novo caos financeiro?
Os mercados estão simplesmente se ajustando à realidade de uma desaceleração constante e uma recuperação muito fraca. Descobrem que não veremos um boom tão breve. Os especialistas em previsões de Wall Street e muitos bancos centrais já estavam acreditando que havia uma forte tendência à recuperação. Mas novamente entenderam errado a situação, pois insistem em querer usar as recessões comuns no pós-guerra como referência. Mas esta é uma recuperação pós-crise financeira, algo mais raro e muito diferente.
Que efeito tem essa percepção?
A noção de que se trata apenas de uma forte recessão, a "Grande Recessão" levou a decisões políticas equivocadas, como o fim prematuro do afrouxamento quantitativo pelos Estados Unidos, e a crença de que na Europa já estaria iniciando uma forte recuperação que salvará tudo, permitindo que as autoridades políticas evitem adotar decisões mais duras com relação à dívida dos países periféricos. Na realidade, o que temos é um tipo de desaceleração econômica que deveria ser melhor chamada de "Segunda Grande Contração", porque envolveu uma contação prolongada dos balanços globais muito inchados e um aperto do sistema de crédito. Agora, a recuperação requer mais estímulo monetário, especialmente nos Estados Unidos.
Isso é provável? No momento, nos EUA o foco do debate é o corte das despesas do governo e a redução da dívida do país. Uma inflação mais alta seria um meio de resolver o problema?
Se por acaso você está na direção de um banco central, tem que estar ponto e ser capaz de resistir à opinião popular. Muitas pessoas acham que falar de uma inflação, mesmo moderada, é uma heresia. Mas estamos num total vendaval por aqui. Não digo que devemos ter uma inflação de dois dígitos ou uma hiperinflação. Mas acho que os bancos centrais deveriam permitir que o núcleo da inflação suba um pouco mais do que os normais 2%. Embora acredite que o estímulo monetário virá, estou preocupado que não seja eficaz o suficiente para ter algum efeito material sobre esses balanços.
Por que um calote seletivo de alguns países europeus seria menos nocivo do que, digamos, um calote do governo americano?
Grécia, Portugal e Irlanda são países minúsculos. Grécia e Portugal em especial estão nos primeiros estágios para se tornarem economias avançadas. Ainda estão mais próximos dos mercados emergentes. E os mercados emergentes sempre que declararam moratória não derrubaram a economia global. Se os EUA ou a Alemanha dessem um calote da sua dívida, a questão seria totalmente diferente. Não quero dizer o tipo de moratória técnica que os EUA declarariam se o Congresso não tivesse elevado o teto da dívida. Se essa tolice tivesse se verificado, seria rapidamente corrigida, embora pudéssemos sofrer alguns prejuízos duradouros. Mais provavelmente, os Estados Unidos teriam que pagar taxas de juros ligeiramente mais altas nas próximas décadas. Mas a situação americana é bem diferente da Europa, onde alguns países estão fundamentalmente falidos.
Se o sr. analisa a reação histérica dos mercados financeiros, os políticos ainda têm uma chance de impor um limite para o poder dos especuladores?
Os mercados acionários tiveram um crescimento muito rápido. Agora percebem que foram exageradamente otimistas. Wal Street, o Federal Reserve e outros, todos apostaram num crescimento vigoroso e estavam totalmente errados.
O que os políticos dos dois lados do Atlântico fizeram de errado durante as recentes crises financeiras?
Não consigo entender como o presidente Obama fez tantas concessões nas recentes negociações envolvendo o teto da dívida. Ele tinha todas as cartas na mão e ainda assim se curvou diante do Tea Party. Ele deveria ter dito: "Não negocio com terroristas. Se vocês desejam derrubar os mercados financeiros, é seu problema. Eu pretendo me comportar normal e responsavelmente". Em vez disso, acabou fazendo enormes concessões, o que debilitou a sua presidência. Talvez os danos não sejam duradouros, mas da próxima vez o presidente poderá ter que provar, para ele ou ela, que está disposto a aceitar um calote técnico curto em vez de dar-se por vencido.
E os europeus? A chanceler Angela Merkel relutou muito no caso de um socorro financeiro para a Grécia.
Não é fácil para um político fazer algo que tem ser feito mas é impopular. A Grécia necessita de um maciço plano de reestruturação. Portugal também, e provavelmente a Irlanda. No final, a Alemanha terá que garantir toda a dívida do governo central na Espanha e Itália e isso será muito doloroso. Se Itália e Espanha devem se manter na zona do euro, então infelizmente os alemães precisarão admitir que a Europa vai ser uma união de transferência durante algum tempo ainda.
Existe uma alternativa?
Claramente, foi um erro permitir a adesão dos países do sul da Europa prematuramente, mas agora não há outra maneira de pagar pela dívida deles senão por meio dessas transferências. Gostaria de dizer que se trataria de um único pagamento, mas acho que ninguém na Alemanha acredita nisso e não deve mesmo acreditar. Este é um problema de longo prazo. Naturalmente, a Alemanha deve exigir grandes concessões políticas, como a instalação de um presidente europeu ou um ministro das finanças europeu poderoso.
O crescimento arrefeceu na China também. De onde virá o crescimento global no futuro?
Os mercados emergentes estão desacelerando menos no momento. Mas as autoridades nesses países precisam tirar da cabeça que vai haver uma grande recuperação cada vez que crescem um pouco. Isso não ocorrerá enquanto os níveis de dívida continuarem altos. Poderemos ver um crescimento moderado em média de apenas 1% ou 2% em muitos países avançados nos próximos três a cinco anos. Não é o fim do mundo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO