Título: Crise da dívida se agrava e contagia um número cada vez maior de países
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Fonte: O Estado de São Paulo, 14/08/2011, Economia, p. B6
Rebaixamento da nota de risco dos EUA deflagra nova onda de pânico - França entra na mira dos especuladores e ações de bancos despencam - Itália antecipa alta de impostos em resposta à pressão de mercado - No Brasil, o governo promete ajuste fiscal
O rebaixamento inédito da nota da dívida dos Estados Unidos de AAA para AA+ pela agência de classificação de risco Standard & Poor"s lembrou ao mundo que a crise de 2008 ainda não acabou. Há três anos, os países ricos assinaram cheques de trilhões de dólares para cobrir o rombo nos bancos e reanimar a economia. A conta chegou e os investidores desconfiam que os governos não terão como pagar.
A reação à decisão da agência foi furiosa e caótica. No fim de semana, o Banco Central Europeu, o G-7 e o G-20 (grupos de países mais influentes do mundo) anunciaram intervenções para acalmar o mercado. Não adiantou. Durante uma semana, as ações oscilaram violentamente. Em pânico, os investidores correram para aplicar seus recursos em títulos da dívida americana, justamente os que haviam sido rebaixados pela S&P. A UE voltou a intervir no mercado, desta vez para proibir a especulação com ações de bancos. A Itália anunciou cortes de 45 bilhões no orçamento e Portugal antecipou um pacote de aumento de impostos.
O principal efeito da decisão da S&P não foi provocar medo que os EUA estivessem perto de dar o calote em sua dívida. Muito questionado, o rebaixamento pôs em evidência as dificuldades políticas e econômicas enfrentadas pelos EUA para sair da crise.
Sem uma reação americana, a economia mundial deve crescer menos, ou entrar em nova recessão. Com uma economia global combalida, aumenta a desconfiança sobre a capacidade de os europeus crescerem e gerarem os recursos que precisam para pagar suas dívidas. A desconfiança de mercado passou a contaminar mais países. Se antes os especuladores miravam países da periferia da Europa, como Grécia, Irlanda e Portugal, agora já colocaram no radar economias mais poderosas, como a italiana e a espanhola. Na semana passada, até a França, a segunda maior economia da zona do euro, entrou na mira. Especulou-se que o país também seria rebaixado.
No Brasil, a crise apareceu na forte oscilação no preço das ações. O governo prometeu segurar gastos, para impedir que a desconfiança dos investidores chegue ao País. Nos bastidores, já se fala não só em interromper o ciclo de alta de juros para conter a inflação, como num eventual corte da taxa Selic.