Título: A política monetária não basta para conter o crédito
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/08/2011, Economia, p. B2

A alta dos juros cobrados pelas instituições financeiras, sobretudo nas linhas de maior risco, como o cheque especial, ainda não foi suficiente para refrear o crédito, que cresceu 1,1%, entre junho e julho; 8,7%, na comparação entre os primeiros sete meses de 2010 e 2011; e 19,7%, nos últimos 12 meses - bem acima da inflação, portanto. Ao afirmar que a desaceleração dos financiamentos está em curso, o Banco Central (BC) dá ênfase a algumas modalidades, mas não ao conjunto das operações. Entre junho e julho, a relação crédito/Produto Interno Bruto (PIB) aumentou de 47,1% para 47,3%, com alta de 2,7 pontos porcentuais nos últimos 12 meses.

Entre as operações que mais cresceram, destacou-se o crédito imobiliário, com 3,5% no mês, 24,9% no ano e 49,2% em 12 meses. O conjunto dos empréstimos de valor superior a R$ 50 mil foi o que mais cresceu (41%, em 12 meses, ante 16% das operações entre R$ 5 mil e R$ 50 mil).

O aumento das operações de crédito livre, de 0,9%, no mês, e de 17,8%, em 12 meses, foi o mais moderado. A participação do crédito consignado, por exemplo, diminuiu de 61% do total do crédito pessoal, em dezembro, para 58,9%, em julho, mas em termos nominais não houve redução.

Por ora, não foi atingido o objetivo do BC de limitar a expansão do crédito, neste ano, a 10% a 15%. Mesmo admitindo alguma desaceleração, o crescimento anualizado, em julho, ainda foi de 15,4% ao ano, conforme os cálculos da LCA Consultores.

Entre julho de 2010 e julho de 2011, a taxa média de juros cobrados nos empréstimos às pessoas físicas aumentou 5,2 pontos porcentuais, de 40,5% ao ano para 45,7% ao ano. Os juros do cheque especial chegaram, no mês passado, a 188% ao ano, alta de 17,3 pontos porcentuais neste ano. É a maior taxa desde 1999, mas o recuo nesses empréstimos, de 3,1 pontos porcentuais no mês, deve-se antes ao crescimento exagerado das operações, de 22,6% neste ano, indicando que muitos tomadores se dispõem a pagar juros astronômicos.

Até julho, o crédito às pessoas físicas crescia mais rapidamente do que o crédito às empresas, situação que parecia se alterar no início de agosto, segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel. É possível que as companhias estejam começando a se preparar para o aumento de atividade do final do ano.

Se o BC pretende a desaceleração mais rápida do crédito, terá de adotar, além do juro alto, outros instrumentos - como a diminuição de prazos das operações ou alta do compulsório. Mas os bancos têm gordura para emprestar mais, se quiserem.