Título: Investimentos necessários para recuperação chegam a R$ 80 bi
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Fonte: O Estado de São Paulo, 28/08/2011, Economia, p. B7

Para entidades do agronegócio, empresas e governo precisam discutir formas de retomar expansão do setor

Para consultores, produtores e empresários ouvidos pela reportagem, a recuperação somente será possível com um novo ciclo de desenvolvimento semelhante ao da década passada, quando a produção e o número de unidades dobraram, mas foram insuficientes para atender à demanda. "Para equilibrar a oferta e demanda nos mercados internos e externo, precisaremos moer 400 milhões de toneladas de cana em dez anos", diz Sérgio Prado, representante da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) em Ribeirão Preto. Para isso, diz, serão necessários R$ 80 bilhões para serem investidos no campo, na renovação e no plantio de novas áreas de canaviais e na expansão e instalação de novas unidades industriais.

"Isso equivale à instalação de dez usinas com capacidade para moer 4 milhões de toneladas por ano", diz. Na safra 2011/2012, estava prevista a instalação de cinco novas unidades. Três delas tiveram de ser transferidas para a próxima safra (2012/2013). Segundo o consultor Luiz Carlos Corrêa Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileiro do Agronegócio, essa recuperação precisa começar com a imediata renovação dos canaviais, que demoram entre dois e três anos para produzir novamente e cuja área de envelhecimento ainda não é possível de ser calculada.

Para a pesquisadora Míriam Bacchi, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), "o momento é de repensar a política para o setor". Segundo ela, governo e iniciativa privada precisam estabelecer uma agenda para a retomada dos investimentos que dê segurança aos investidores e que haja investimentos em tecnologia para aumentar ganhos de produtividade e reduzir custos de produção.

"É preciso uma política eficiente de estoques, uma revisão da política tributária com desoneração do ICMS em alguns Estados, investimentos em novas unidades e expansão do plantio, com vistas a reduzir ao menor custo a produção do etanol. É preciso também uma política clara de combustível para dar segurança ao investidor e que as intervenções governamentais não se deem diretamente, como ocorreu este ano, quando o governo usou a BR Distribuidora para controlar preços", diz.

Diálogo. Mas, para chegar a um consenso, é necessário que as lideranças da cadeia se unam e tenham diálogo com o governo federal, o que não vem ocorrendo de forma satisfatória.

"É preciso que o setor encontre uma união, porque hoje ele está dividido por interesses individuais - não no caso de São Paulo, mas de outros Estados", diz Celso Junqueira, presidente da União dos Produtores de Bioenergia (Udop), que reúne 70 unidades de seis Estados.

"Há necessidade de se estabelecer diálogo mais eficiente com o governo federal, que ainda julga o setor como sendo "do mal"", diz. "Um exemplo são essas revisões de safra, encaradas pelo governo como se o setor estivesse omitindo informações, o que não é verdade", diz. Outro problema, segundo Junqueira, está na falta de democratização dos financiamentos oficiais. "Apenas as grandes empresas tiveram acesso ao BNDES e Banco do Brasil, as mesmas que têm acesso aos financiamentos de outros outros bancos."