Título: Cúpula expõe inversão histórica de papéis
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2011, Economia, p. B4

Atravessando conjunturas econômicas opostas, os líderes políticos do Brasil e da Europa viveram na manhã de ontem, em Bruxelas, uma inédita inversão de papéis na cúpula União Europeia-Brasil. Em visita oficial, a presidente Dilma Rousseff destacou a estabilidade e o crescimento brasileiros, deu conselhos sobre desenvolvimento e pôs-se à disposição para ajudar. Em troca, ouviu garantias de que a Europa vai controlar a crise.

Dilma chegou à sede do Conselho Europeu com meia hora de atraso para participar da reunião de duas horas, o encontro mais importante da agenda em Bruxelas. A nova edição da cúpula, a quinta desde 2007, tinha como objetivo a assinatura de acordos de cooperação nas áreas de clima e meio ambiente, pesquisa acadêmica e desenvolvimento para aprofundar "parceria estratégica" entre o bloco e o Brasil.

No fim da manhã, as autoridades discursaram e então a diferença se fez notar. A presidente afirmou que o G-20 de Londres, em 2009, evitou o colapso do sistema financeiro e reduziu os efeitos da recessão, mas não trouxe o crescimento sustentável e a redução do desemprego.

Dilma afirmou que a economia global enfrenta a "segunda fase da crise" e, em vários momentos, se pôs na posição de exemplo à Europa.

"O Brasil e outros emergentes têm mostrado nos últimos anos que crescimento, geração de renda, aumento do emprego e da produtividade são compatíveis com responsabilidade e equilíbrio fiscal", disse, observada pelos presidentes da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, e do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy.

Já os dois líderes europeus fizeram o discurso inverso e multiplicaram as garantias de que o bloco vai contornar a crise das dívidas soberanas. Porta-voz dos chefes de Estado e de governo da UE, Rompuy foi o mais enfático. "Eu sublinhei à presidente a determinação da Europa de manter a estabilidade da zona do euro e assegurar crescimento econômico e produtividade."

Além disso, elogiou o crescimento e o grau de estabilidade alcançado pelo Brasil e pediu a colaboração do país no G-20 de Cannes, em novembro, para que avanços sejam obtidos na reforma da economia mundial.