Título: Feito na China, concebido nos EUA
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/10/2011, Internacional, p. A18
É preciso que Washington invista mais em infraestrutura e educação para poder competir em igualdade com a China
Na semana passada, conversei com vários empresários de Hong Kong a respeito de um projeto de lei que acaba de ser aprovado pelo Senado americano, destinado a preparar terreno para a aplicação de tarifas sobre as exportações chinesas para os EUA, caso a China não valorize a sua moeda. De todas as conversas, concluí três coisas.
A primeira é que espero que as pessoas que pressionam para a aprovação desse projeto não desistam. A segunda é que espero que essas pessoas não tenham sucesso. E a terceira: espero que ninguém acredite que essa legislação trará algum resultado positivo e sustentável para o nosso problema do desemprego, que, aliás, exige uma abordagem muito mais radical.
Apoio o projeto de lei em tese, porque a China precisa acordar. Eu sei, a China nunca reage a pressões que levam a confrontos - pelo menos não imediatamente. De fato, ela começou a valorizar a sua moeda em 2005, a última vez em que o Senado fez outra ameaça não tão velada.
Ocorre que a estratégia que a China está usando, ou seja, baixos salários e moeda barata, para manter funcionando um enorme motor de crescimento com base nas exportações - usando, ao mesmo tempo, seu vasto mercado para atrair e forçar as companhias a transferirem para ela também sua tecnologia - está afetando ambas as partes.
A China está gastando toneladas de dinheiro para manter sua moeda artificialmente desvalorizada e, ao mesmo tempo, criando uma inflação interna e uma bolha imobiliária que enfraquece sua competitividade.
Enquanto isso, são assustadoras as histórias que ouvi em Hong Kong a respeito de inúmeras companhias americanas que sentem a necessidade de transferir tecnologia avançada para a China por causa da pressão exercida pelas autoridades de Pequim. Na realidade, os líderes chineses, preocupados com o desemprego, valorizarão sua moeda quando acharem conveniente. No entanto, se a pressão para aprovar esse projeto de lei reduzir ainda que minimamente o ritmo no qual as companhias americanas transferem suas operações para a Ásia e der a outras mais tempo para se adaptarem, valerá a pena.
Por outro lado, por favor, não deixem que a Câmara aprove esse projeto. Isto desencadearia uma guerra comercial no meio da nossa Grande Recessão. Tentamos isso em 1930. Não deu certo. Hoje, pior ainda, impediria que nos concentrássemos no verdadeiro problema: como adequar o nosso mercado de trabalho à intensificação simultânea da globalização e da revolução da TI, fenômeno mais abrangente que está ocorrendo hoje no mundo?
A intensificação da globalização significa que uma proporção maior de todos os produtos e serviços pode ser produzida em qualquer parte do mundo. E a intensificação da revolução da TI significa que uma proporção maior de produtos e serviços pode ser criada por máquinas e softwares.
Escrevo esta coluna num laptop Dell com a frase "Made in China" impressa no fundo. Na realidade, ele foi montado na China, mas o design, a placa de memória, a tela, o chassis e dezenas de outras peças foram fabricadas em outros países. Embora a máquina diga "Made in China", a parte do leão de seu valor e do lucro vai para a empresa que concebeu a ideia e montou a cadeia de fornecimentos - a Dell Inc., do Texas.
Desvantagem. Nunca mais recuperaremos os empregos destinados à montagem desses produtos de mão de obra intensiva, transferidos para a China - as discrepâncias salariais são enormes. O que nós precisamos é tratar de multiplicar o número de pessoas no estágio de concepção de alto valor, na extremidade da criação da cadeia de fornecimentos e nos processos de produção graças aos quais uma pessoa pode ser extremamente produtiva e bem paga, operando múltiplas máquinas.
Precisamos nos preocupar com o "Concebido nos EUA" e "Fabricado nos EUA por um trabalhador especializado que utiliza um exército de robôs mais especializados ainda". Em termos de valor total, os EUA fabricam ainda quase tanto quanto a China. Só que fazemos isto com menos gente. É por isso que precisamos de mais empresas iniciantes no setor de tecnologia.
No entanto, também precisamos parar de pensar que uma classe média pode se sustentar apenas com empregos na indústria. Há 30 anos, Hong Kong era um centro industrial. Agora, sua economia é composta em 97% de serviços.
Um dos motivos é que Hong Kong transformou-se num imenso centro turístico que, no ano passado, recebeu 36 milhões de visitantes - 23 milhões só da China. Segundo o Departamento do Comércio dos EUA, em 2010, 801 mil chineses visitaram o país, injetando US$ 5 bilhões na economia americana. E há muitos chineses mais que querem ir para os EUA, mas, por razões de segurança, encontram dificuldade para a obtenção do visto de entrada.
Outra ideia que as autoridades de Hong Kong propõem é que os EUA convidem empresas chinesas para investir em pontes com pedágio, estradas com pedágio e redes ferroviárias em todo o território americano, em parceria com companhias americanas. As companhias chinesas poderiam construí-las e operá-las por um determinado período, até que seu investimento se pagasse. Depois, esses bens se tornariam propriedade americana. Talvez seja essa a única solução para reconstruirmos nossa infraestrutura.
Indubitavelmente, a China manipula sua moeda e o acesso ao mercado. O motivo pelo qual nós somos tão vulneráveis, porém, é que não temos poder suficiente. Não poupamos, gastamos demais. Não planejamos e não investimos o suficiente em infraestrutura e educação. Como tratar com uma superpotência como a China sem ter poder? Digam-me como vocês imaginam que isto funcionaria.