Título: União Europeia dá ultimato à Grécia
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/11/2011, Economia, p. B1
Líderes europeus exigem que referendo do governo grego sobre plano de resgate pergunte também se o país deve sair da zona do euro
Na véspera da abertura da reunião de cúpula do G-20, a Europa deu ontem um ultimato à Grécia. Dois dias depois de o primeiro-ministro do país, George Papandreou, anunciar de forma surpreendente um referendo sobre a adoção do plano de socorro negociado em Bruxelas, líderes europeus impuseram três condições para aceitar a medida: a obtenção de um voto de confiança do Parlamento de Atenas amanhã, a realização da consulta popular no menor prazo possível e a adoção de uma questão direta sobre se a população quer ou não seguir na zona do euro.
O ultimato foi feito na noite de ontem, em Cannes, durante uma reunião pré-cúpula do G-20. No encontro, estavam presentes a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, e os presidentes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia, Herman Van Rompuy e José Manuel Durão Barroso, além de Papandreou.
Em outras palavras, os representantes europeus advertiram Papandreou que ou a Grécia diz "sim" à permanência na zona do euro e adota o plano de socorro aprovado por 17 países, ou diz "não" e abandona a moeda única por livre vontade.
"A Grécia quer ou não continuar na zona do euro? Nós queremos que ela continue. Mas cabe ao povo grego decidir se quer ou não ficar", disse Sarkozy em entrevista no fim da noite. "A questão é saber se a Grécia, sim ou não, quer continuar a fazer parte da zona do euro", reforçou Merkel.
O programa de auxílio negociado na madrugada de 27 de outubro prevê um novo programa de financiamento de € 145 bilhões e o corte da dívida da Grécia em 50% - equivalente a cerca de € 100 bilhões. O desconto reduziria a dívida do país de 160% para 120% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2020. Essas medidas foram aprovadas por Papandreou na reunião da semana passada, antes que o premiê mudasse de ideia e decidisse convocar o referendo.
Nos corredores do Palácio dos Festivais, onde o G-20 será realizado a partir de hoje, o Estado apurou que a reunião entre os líderes europeus e Papandreou tinha como objetivo impor a questão que será apreciada pelos gregos. "A ideia é colocar a Grécia frente às suas responsabilidades", disse um diplomata da França, que pediu para não ser identificado. "Se houver uma saída da zona do euro, é preciso que seja voluntária. A comunidade internacional não deve entender a decisão como uma exclusão."
Enquanto Merkel e Sarkozy pressionaram pela decisão em torno da permanência ou não da Grécia na zona do euro, Barroso se encarregou de exigir que o referendo aconteça o mais rápido possível. Segundo o executivo, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef) e o FMI podem não repassar novas parcelas de € 8 bilhões referentes ao primeiro plano de socorro, de € 110 bilhões, aprovado em maio de 2010, enquanto o referendo não tiver sido realizado.
A ameaça põe Papandreou em xeque, já que seu governo só teria liquidez para honrar as dívidas até dezembro. Segundo o jornal britânico Financial Times, três dias antes do fim do ano, Atenas teria de honrar uma fatura de € 5,23 bilhões, além de dívidas de curto termo avaliadas entre € 3,6 bilhões e € 4 bilhões. Com a pressão, em Atenas, o Ministério do Interior afirmou que seria possível realizar a consulta no início do próximo mês. À meia noite, ao deixar o centro de conferências de Cannes, Papandreou confirmou o dia 4 de dezembro como data provável do referendo, confirmado que o objetivo final será definir se a Grécia quer ou não permanecer na zona do euro.
Em meio a tantas indefinições, o Palácio do Eliseu anunciou à noite que uma nova reunião, desta vez sem Papandreou, com Sarkozy, Merkel, o premiê da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, e o da Itália, Silvio Berlusconi, além de representantes da U E, do BCE e do FMI, será realizada às 10h30min de hoje, em Cannes. A pauta do encontro não foi divulgada. Nem precisa.