Título: Atenções agora se voltam para Sarkozy
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/11/2011, Economia, p. B12

Crise prejudica chances de reeleição do presidente francês nas eleições de abril

Desde 2007, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, trabalhou para construir uma nova imagem do poder: a de um "hiperpresidente". Durante quatro anos, o chefe de Estado ofuscou seu primeiro-ministro, François Fillon. Agora, corre o risco de pagar o preço da exposição.

Apontada nos mercados financeiros como a provável próxima vítima da crise, depois da Itália, a França tem eleições em abril de 2012, e todas as atenções se voltam para as chances do atual mandatário francês ser a nona cabeça cortada na Europa.

Depois de contagiar a Itália, ameaçando a sobrevivência da zona do euro e a estabilidade da economia mundial, a crise das dívidas soberanas está às portas de Paris. Na sexta-feira, o jornal Le Monde questionava em título: "Depois da Grécia e da Itália, a França?". O temor se reforçou com o suposto "erro" da agência de rating Standard & Poor"s, que na quinta-feira publicou em seu site uma nota - depois desmentida - associando o país à palavra downgrade (rebaixamento).

O incidente confirmou aos mercados financeiros e ao meio político do país o que os investidores já preveem na Europa e nos Estados Unidos: após Washington, Paris deve ser a próxima a ver seus títulos de dívidas soberanas perderem o status de AAA. Para Jacques Attali, economista e ex-conselheiro do presidente socialista François Mitterrand, os sinais são evidentes: "Não nos iludamos. A dívida francesa já não é mais AAA".

A convicção de que o contágio da França é iminente foi reforçada nesta semana, quando Fillon veio a público anunciar um novo pacote de rigor - como costumavam fazer Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália - somando € 12 bilhões em economias só em 2012 para reduzir o déficit público. Para justificar os cortes, o premiê não hesitou em empregar as palavras "sacrifício" e - sinal dos tempos - "falência".

Futuro. Os anúncios de Fillon foram sucedidos de relatório da União Europeia apontando que o crescimento do país não será de 1% em 2012 e 2% em 2013, como projeta o governo, mas de 0,6%, e 1,4% - dados que impactam de forma negativa o cálculo da dívida e do déficit público.

Todos os números levantam dúvidas sobre o futuro de Nicolas Sarkozy. No início do ano, o atual presidente deve se lançar à reeleição por seu partido, a União por um Movimento Popular (UMP), de direita. Seu principal adversário será François Hollande, vencedor das primárias do Partido Socialista (PS) em outubro. Desde sua vitória, Hollande descolou de Sarkozy e saltou à frente nas pesquisas de intenção de voto, com mais de 10 pontos porcentuais de vantagem.

Eduardo Cypel, conselheiro regional franco-brasileiro e membro da direção da campanha do PS, assegurou ao Estado a mobilização do partido, que aposta as fichas nas eleições de 2012, quando terá pela frente um presidente enfraquecido. "Estamos mais unidos do que nunca para vencer Sarkozy", disse. A estratégia de Hollande é acusar Sarkozy de ser o responsável por € 500 bilhões do total de € 1,7 trilhão da dívida do país - equivalente a 86% do PIB.

Ciente de que sua cabeça está na guilhotina, Sarkozy tenta transformar a crise em elemento de campanha eleitoral. Com esse intuito, contava fazer do G-20 de Cannes a plataforma para demonstrar o sucesso de uma estratégia marcada pela mobilização dos líderes globais. O fracasso da cúpula anulou os planos. Restou a ele então demonstrar força frente à crise política na Europa causada pelo ex-primeiro-ministro George Papandreou, na Grécia, e ao vácuo de poder deixado por Silvio Berlusconi na Itália.

Por ora, a estratégia parece funcionar. Pesquisa do instituto CSA revelou que a popularidade do presidente subiu dos níveis usuais, em torno de 32%, para 40%. Para analistas, Sarkozy soube usar a turbulência econômica a seu favor. Resta saber agora o veredicto do mercado.

-------------------------------------------------------------------------------- adicionada no sistema em: 13/11/2011 08:2