Título: Nome de Néstor Kirchner invade locais públicos
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/10/2011, Internacional, p. A20/21

Milhares de argentinos podem acordar, sair de suas casas na Rua Néstor Kirchner, pegar a Avenida Néstor Kirchner, passar pelo túnel Néstor Kirchner, deixar os filhos nas escolas Néstor Kirchner, torcer para algum deles conseguir uma bolsa de estudos Néstor Kirchner. Depois, pegarão um ônibus na rodoviária Néstor Kirchner e viajarão para Rio Gallegos ou Formosa, onde estão as estátuas de Néstor Kirchner.

Tudo isso pode ocorrer porque, menos de 24 horas depois de sua morte - no dia 27 de outubro de 2010 -, tinha início uma mania nacional de renomear edifícios públicos, rodovias, pontes e as mais diversas obras públicas com o nome do ex-presidente argentino.

O historiador Pablo Vázquez, coordenador do arquivo do Instituto Nacional de Pesquisas Históricas do Museu Eva Perón, em Buenos Aires, afirmou ao Estado que Cristina e o ex-presidente Juan Domingo Perón tiveram o ponto comum da morte de seus cônjuges, "que tinham poderes similares ou iguais aos deles", com grande impacto político.

Vázquez, no entanto, destaca que a onda atual não se compara ao fenômeno ocorrido nos anos 50, após a morte de Evita, quando o governo peronista transformou o território de La Pampa - no centro do país - em "Província Eva Perón" e a cidade de La Plata em "Ciudad Eva Perón".

Na mesma época, o território do Chaco recebeu o nome de "Província Presidente Perón". Uma linha de carros fabricados na Argentina foi batizada com o nome de "O Justicialista" (o peronista).

De acordo com o historiador Luis Romero, Cristina "insinua práticas e representações que colocam Kirchner em uma esfera sobrenatural que motiva seus militantes e inspira a presidente". Romero afirma que o que a presidente faz com a figura de Néstor Kirchner é "algo similar àquilo que Augusto fez com Júlio César", em referência à idolatria que o imperador romano pôs em prática após a morte de seu tio e general.

'Batalha cultural'. Já a socióloga Beatriz Sarlo, autora do best-seller A audácia e o Cálculo, que disseca a estrutura de poder do casal Kirchner, acredita que exista uma "batalha cultural do kirchnerismo", que inclui "uma renovação da simbologia peronista que conta com o dinheiro do Estado argentino". / A.P.