Título: Kadafi, como todos os tiranos, teve a morte que mereceu
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/10/2011, Internacional, p. A16
A morte de um líder democrático muito tempo depois de sua aposentadoria é um assunto privado, mas a de um tirano é sempre um ato político que reflete a natureza de seu poder. Essa noção nunca foi tão verdadeira como o destino do coronel Muamar Kadafi. A única diferença entre ele e tantos outros tiranos na história é que sua morte foi filmada por celular, aparelho que ainda não estava disponível, por exemplo, para os contemporâneos do imperador romano Calígula.
Líderes e intelectuais ocidentais consideraram o linchamento de Kadafi um ato repugnante. Bernard-Henri Lévy disse que ela "poderia poluir a moralidade fundamental de uma insurreição" - mas existem razões políticas sólidas para o massacre.
A tirania do coronel Kadafi foi absolutista, monárquica, pessoal. O problema com esse tipo de ditadura é que, enquanto o tirano viver, ele reina e aterroriza. Os vídeos gravados em celulares, que mostram o coronel sendo espancado, e os buracos de bala no seu corpo tiram dos seus seguidores remanescentes a mística necessária para liderar uma insurgência em seu nome. Esse culto extravagante da personalidade seguramente desmoronou diante do espetáculo de sua patética demolição.
Tiranias são exibições de muitos anos de astúcia, terror, teatralidade e charme, que se condensam em um espetáculo de total controle pessoal. Os tiranos são os maiores administradores do ator. Eles duram enquanto o prestígio, a prosperidade e um vestígio de justiça forem mantidos. Kadafi deve ter planejado morrer como Ricardo III, ou se matar. Esse impostor, porém, estragou sua própria morte. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO