Título: Vazamento do IPCA ocorria desde maio
Autor: Amorim, Daniela
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/11/2011, Economia, p. B4

Acesso antecipado ao índice oficial de inflação, entre outros dados, era possível há pelo menos cinco meses, por falha no site do IBGE

Uma mudança no sistema de divulgação de informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deixou, ao longo de pelo menos cinco meses, dados de pesquisas disponíveis para consulta antes da divulgação oficial.

Informações até então confidenciais sobre inflação, Produto Interno Bruto (PIB) e mercado de trabalho podem ter ficado acessíveis em uma gaveta "esquecida" no site do IBGE desde o fim de maio, quando a mudança no sistema de publicação do site foi concluída.

A implantação do novo sistema, entre abril e maio, deixou oculto no site um local onde eram armazenados os releases das divulgações do dia seguinte. Apenas os títulos, que continham o principal dado a ser divulgado, podiam ser consultados. No entanto, esses títulos traziam as informações mais importantes de cada divulgação.

Os dados são preciosos, por exemplo, para quem faz transações no mercado financeiro, como operações de juros no mercado futuro. Desde o início de junho, a gaveta foi visitada por 1.200 pessoas. Anteontem, quando foi detectado o vazamento do resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foram 20 visitas.

"Eu não entendo isso como vazamento. Mas, sim: a informação estava disponível a partir do momento em que ela era publicada. O arquivo estava disponível para quem quisesse consultar, seja às 17 horas, 17h30 ou 18 horas", disse Ian Nunes, gerente do Centro de Documentação e Disseminação de Informações.

Apesar da gravidade do vazamento, a presidente do IBGE, Wasmália Socorro Barata Bivar, não se manifestou publicamente sobre o assunto. Em nota, disse que todos os esclarecimentos foram dados pelos técnicos.

O IBGE foi informado sobre o vazamento das informações do IPCA de outubro, do Índice Nacional da Construção Civil (INCC) de outubro e do emprego industrial em setembro, às 17h38 de quinta-feira. A direção do Centro de Documentação e Disseminação de Informações disse que um jornalista percebeu o erro e alertou o instituto.

Não foi informado o nome do profissional nem o veículo em que trabalha. Após a notificação sobre o erro, o IBGE afirma que levou 20 minutos para retirar as informações do site, o que teria ocorrido por volta das 17h58.

"Avaliamos que o vazamento não teve qualquer efeito nos mercados, porque, pelo horário, já estavam fechados, então não poderia ter ocorrido", afirmou David Wu Tai, diretor do Centro de Documentação e Disseminação de Informações.

O Ministério do Planejamento, ao qual o IBGE é subordinado, foi informado do episódio assim que o problema foi constatado. Os resultados dos indicadores do IBGE são encaminhados com antecedência pelo instituto aos ministérios que têm interesse nos dados de cada pesquisa.

O prazo para a precedência, que era de 24 horas, foi encurtado para duas horas, por portaria publicada em novembro de 2007. A intenção era dificultar vazamento, após suspeitas de repasse irregular de informações, investigadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

No IBGE, dentro da equipe de assessoria de imprensa, seis profissionais de comunicação estão capacitados a receber os resultados e transformá-los em material de divulgação. Porém, o instituto ressalta que apenas um funcionário é destacado para a função a cada divulgação. O material é preparado na véspera da publicação, no fim da tarde, e passa pela revisão do responsável pela pesquisa, antes de ser encaminhado para a Gerência de Serviços Online, responsável pela inserção no sistema de publicação.

O IBGE está fazendo uma varredura no sistema de publicação do site, na tentativa de detectar alguma outra falha que possibilite novo vazamento de informações sobre indicadores da instituição. "Essa varredura ainda não terminou, mas não foi encontrado nenhum problema até agora", afirmou Ian Nunes, gerente do Centro de Documentação e Disseminação de Informações.

O instituto terá um novo banco de dados, isolado do antigo, para receber informações das novas divulgações. A intenção é evitar mais vazamentos.