Título: Primeiro passo para que indústria avance já foi dado
Autor: Dantas, Iuri
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/02/2012, Economia, p. B4
A crise econômica mundial, que começou "oficialmente" com a quebra de um conglomerado financeiro de investimentos, o banco Lehman Brothers, ultrapassou as bolsas de valores, os bancos e as finanças para aterrissar na indústria. O baque econômico das grandes economias cortou o número de consumidores, e as indústrias desses países, que precisam continuar produzindo, não encontram mais consumidores na esquina. Por isso, precisam exportar para os países emergentes. O grupo das nações em desenvolvimento, que sanearam os setores bancário e financeiro nas crises dos anos 90, ainda continua crescendo a partir do próprio umbigo: por serem países de renda mais baixa, precisam incluir boa parte de suas populações no mercado, erigindo novos mercados de consumo que se tornaram o oásis para os industriais do Atlântico Norte. As empresas desses países são mais eficientes, mais competitivas. Tinham acesso a crédito mais barato e passaram décadas vendendo mercadorias de alto conteúdo tecnológico aos consumidores dos países mais pobres, que em troca exportavam produtos básicos. Hoje, enfrentam o que o jargão econômico classifica de excesso de capacidade instalada: produzem de mais para consumidores de menos. O Brasil passou por movimento diferente. A duras penas conquistou a estabilidade macroeconômica, debelou a inflação e começou a distribuir renda com políticas sociais e salário mínimo mais polpudo. A crise de 2008 foi a primeira turbulência internacional navegada pelo País sem complicações nas contas externas. O Brasil hoje possui uma nova classe média, um novo contingente de milhões de consumidores. Têm-se o quadro: indústrias dos países desenvolvidos com produtos avançados e sem consumidores. O mercado brasileiro formado por uma classe média consumidora, mas sem uma indústria moderna e avançada. O plano do governo Dilma Rousseff é unir as duas coisas: usar o mercado doméstico para impulsionar o avanço da indústria. O primeiro passo foi deslocar a taxa de juros em direção a um número racional. Agora, é a vez das medidas industriais.