Título: Militar americano mata 16 civis no sul do Afeganistão e aprofunda crise
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Fonte: O Estado de São Paulo, 12/03/2012, Internacional, p. A8

Chacina. Presidente afegão exige energicamente explicações de Washington sobre o ataque, que teve 9 crianças entre suas vítimas e ameaça provocar uma nova onda de hostilidade contra os EUA, que pretendem retirar suas forças do país somente em 2014

Invadindo casa por casa, um sargento do Exército americano matou metodicamente ontem pelo menos 16 civis, entre eles 9 crianças e 3 mulheres, em vilarejos do Distrito de Panjwai, na Província de Kandahar, sul do Afeganistão. Funcionários americanos e afegãos temem que o ataque, o mais recente incidente de uma série envolvendo as forças internacionais, possa provocar uma nova onda de hostilidade contra os EUA no país.

O presidente afegão, Hamid Karzai, exigiu energicamente explicações de Washington e disse que o ataque - que também deixou seis feridos - foi "um ato desumano e intencional". "Isso foi um assassinato intencional de civis inocentes que não pode ser esquecido", afirmou Karzai em um comunicado. O presidente americano, Barack Obama, telefonou a Karzai para manifestar seu "choque e tristeza" pelo incidente (mais informações nesta página).

Algumas testemunhas dizem vários soldados bêbados teriam cometido a chacina. No entanto, um oficial americano afirmou que o ataque foi realizado por apenas uma pessoa, um sargento cuja identidade não foi revelada. Ele foi preso depois de voltar à sua base e se entregar.

Moradores descreveram uma aterrorizante série de ataques no qual o militar caminhou quase dois quilômetros desde sua base, forçou portas, e conseguiu entrar em três casas matando ou ferindo seus ocupantes. Depois, ele reuniu 11 corpos, entre eles os de 4 meninas com menos de 6 anos, e ateou fogo.

Jan Agha, de 20 anos, disse à agência Reuters que o som de tiros o tirou da cama. Viu seu pai nervosamente espiar pela janela, por trás da cortina. De repente, ouviu mais tiros. Seu pai tinha sido atingido no rosto e no pescoço e morreu instantaneamente. "Minha mãe foi ferida no rosto e no olho. Está irreconhecível. Meu irmão, atingido na cabeça e no peito, e minha irmã foram mortos também", disse Agha. Ele assegurou mais de um soldado esteve envolvido no ataque. "Vários soldados entraram em casa e ficaram em silêncio. Permaneci no chão, fingindo estar morto."

Após os assassinatos, os moradores recolheram os corpos e os levaram até a base militar para protestar. Marcas de queimaduras podiam ser vistas em algumas vítimas. Panjwai, uma área rural de Kandahar e um tradicional reduto do Taleban, já foi cenário de intensos confrontos. O Taleban disse ontem que o ataque mostra que as forças internacionais são contra o povo afegão.

O ataque ocorre em um momento delicado para as forças internacionais depois que, no mês passado, a queima acidental de exemplares do Alcorão provocou distúrbios em todo o país, nos quais 29 afegãos e 6 soldados americanos foram mortos. / NYT, AP e REUTERS