Título: Crise pode ter afetado PIB potencial
Autor: Dantas, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/05/2012, Economia, p. B3

Para Tombini, capacidade de o mundo crescer, incluindo o Brasil, pode ter se reduzido; expansão de 4% do País "é bastante satisfatória"

O crescimento potencial do mundo pode ter caído em razão dos efeitos da grande crise global na economia real, segundo o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. No Brasil, da mesma forma, pode ter havido alguma queda, para o presidente do BC, que nota que "o crescimento de 7,5%, como ocorrido em 2010, é claramente muito superior ao potencial brasileiro".

Para Tombini, uma expansão do PIB de 4% ao ano numa economia madura como o Brasil é bastante satisfatória. Ele não revelou, porém, qual seria a sua estimativa sobre o crescimento potencial do Brasil hoje. O crescimento potencial é aquele que não gera desequilíbrios na economia, como inflação em alta ou déficits externos insustentáveis.

Em relação à convergência da inflação para o centro da meta de 4,5%, Tombini chama a atenção para o debate, na comunidade internacional de bancos centrais, sobre a "resiliência da inflação" em diversos países. O fenômeno pode estar ligado à incidência mais alta de choques de oferta, como altas do petróleo e outras commodities, e à elevada liquidez internacional.

O presidente do BC nota ainda que o IPCA em 12 meses caiu de 7,31% em setembro para 5,1% em abril. Segundo ele, a inflação "basal" (conceito médico que indica o nível mínimo de atividade de um organismo em completo repouso) no Brasil é alta, e, desde o início do sistema de metas em 1999, o IPCA ficou abaixo de 5,5% em apenas três anos - 2006, 2007 e 2009.

Para Tombini, a economia brasileira está sólida, com reservas internacionais de US$ 374 bilhões e dívida pública líquida de cerca de 36% do PIB. "Com a recente desvalorização, a dívida inclusive caiu, já que somos credores líquidos em dólares", diz Tombini.

Ele afirmou que o BC não tem intenção de usar medidas macroprudenciais para evitar a elevação da Selic no futuro, conforme especulações no mercado. O presidente do BC frisou que o objetivo principal das medidas macroprudenciais, como os controles sobre mercados de crédito, é o de controlar desequilíbrios no mercado financeiro e de crédito.

Essas medidas podem voltar a ser usadas nesse contexto, e, quando forem, a política monetária levará em conta os efeitos sobre a demanda das macroprudenciais. Mas, segundo Tombini, na ausência de sinais de desequilíbrios financeiros e de crédito, o instrumento preferencial de combate à inflação continua a ser a Selic, que tem um efeito mais generalizado na economia.

O presidente do BC nota ainda que a alta da inadimplência no crédito bancário está ligada à concessão de empréstimos na fase de maior aquecimento. Assim, cerca de 70% da inadimplência nos empréstimos para aquisição de veículos - o segmento com freada recente mais brusca - está nos contratos de cinco anos, que foram alvo das medidas macroprudenciais.

Porém, como a economia está reacelerando, a situação da inadimplência, num olhar à frente, tende a melhorar. Uma expansão do crédito menos tímida neste momento seria contracíclica, dando melhor suporte ao ciclo de cortes da Selic.

A recente desvalorização do real, para Tombini, também ajuda no contexto de uma economia em recuperação, já que um real menos forte é bom para a indústria, cujo desempenho foi negativo recentemente.

Ele vê a desvalorização de março e abril como fruto de vários fatores, incluindo os juros em queda e a política combinada de intervenções do BC e de controles de entrada de fluxos, com destaque, no início de março, para a redução para até um ano do prazo das operações enquadradas como pagamento antecipado à exportação.

Já na desvalorização mais recente, a reboque do aumento global de aversão a risco, Tombini nota que o real perdeu menos em valor do que várias outras moedas. Ele considera que a situação do mercado cambial é muito tranquila, e recorda o acontecido em setembro de 2011, quando, no contexto da preocupação com a desvalorização ocorrida na época, bastaram dois leilões de venda do BC para restaurar a calma.

Segundo o presidente do Banco Central, a instituição está sempre pronta para atuar quando o mercado cambial se torna "disfuncional".

Parcimônia ressaltada. Tombini ressaltou que, na última ata do Copom, está escrito que "qualquer flexibilização monetária adicional deve ser conduzida com parcimônia". Para ele, a parcimônia se justifica pela grande volatilidade do cenário global.