Título: Riacho de águas turvas
Autor: Kramer, Dora
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/05/2012, Nacional, p. A6

Existem hoje três narrativas correntes no Congresso para explicar a lentidão no desenrolar dos trabalhos da CPMI que começou como caudalosa cachoeira e vai ficando parecida com um raso riacho de águas turvas.

Uma versão insinua que a comissão esteja sendo vítima de boicote por parte da Polícia Federal e/ou do Supremo Tribunal Federal que não teriam enviado material suficiente para permitir revelações relevantes.

Outra considera a demora natural. Fruto de um caminhar estratégico que, com o exame detido e cruzamento de dados, iria por si desvendando o modo de funcionamento da organização originada na jogatina goiana que depois se alastrou pelo país mediante parcerias público-privadas de natureza criminosa.

Ou seja, o espetáculo estaria só começando e a plateia não perderia por esperar a hora H.

A terceira narrativa qualifica as anteriores de pura conversa fiada, pois já haveria documentos e elementos bastantes à disposição da CPMI para se iniciarem quebras de sigilos bancários e fiscais e propiciar pedidos de indisponibilidade de bens.

Por essa linha de pensamento faltaria mesmo é interesse real de apurar os fatos, sobrando motivação política para não avançar.

Qual delas corresponde à realidade em breve o tempo dirá, não obstante no momento esteja dando razão à última.

Seja como for ou como venha a ser, fato é que a CPMI prometeu muito e mais de um mês depois de criada ainda não entregou quase nada.

Isso a despeito de, ao contrário de antecessoras célebres, já começar na posse de investigações completas e da indicação de suspeitos fortes. O pouco que produziu de concreto surgiu paradoxalmente durante o silencioso "depoimento" de Carlos Augusto de Almeida Ramos, cujo vulgo Cachoeira dá nome à comissão.

O deputado Onyx Lorenzoni quebrou a regra do comando e relevou durante a sessão a existência de provas que obrigaram o relator Odair Cunha, visivelmente irritado e constrangido, a admitir como inevitável a quebra do sigilo das contas da Delta nacional, até então restrita à filial da empresa na Região Centro-Oeste.

Lorenzoni foi atrás e descobriu provas de que o ex-diretor da regional da Delta Cláudio Abreu tinha autorização da matriz para movimentar as contas da construtora.

Além disso, perícia da Polícia Federal já havia identificado transferências de recursos da empreiteira para empresas fantasmas a partir de agências bancárias localizadas no Rio de Janeiro. Parte do dinheiro direcionado a financiamento de campanhas eleitorais.

Mesmo assim, o relator ainda insistia na inexistência de indícios suficientes para a abertura dos dados em âmbito nacional. Com a revelação inesperada, o discurso mudou: "A probabilidade de quebra de sigilos bancário, fiscal e telefônico da matriz da construtora aumentou muito", passou a dizer.

A CPMI decidirá sobre isso na próxima semana. Quando, então, decidirá também se emerge ou afunda na lama de uma vez.

Bombas

Não está claro ainda se é boato ou produto confirmado das investigações, mas transitam entre integrantes da CPMI duas informações.

Uma: haveria indícios de que Cláudio Abreu, diretor da Delta no Centro-Oeste, estaria desviando recursos da matriz. Em outras palavras, "roubando o Cavendish", como diz um dos porta-vozes dessa versão.

Outra: policiais militares de Goiás dariam proteção ao jogo ilegal em troca de 30% do lucro obtido por Carlos Cachoeira na venda de máquinas caça-níqueis aos donos de cassinos clandestinos.

Inconsequência

Uma pergunta a ser respondida por governantes em geral, em particular pelo candidato do PT à prefeitura de São Paulo, é como conjugar soluções para a melhoria do trânsito com os incentivos do governo federal ao aumento da compra e uso de automóveis sem a menor preocupação com o efeito colateral.