Título: A dívida pública é sensível às mudanças da política
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/05/2012, Economia, p. B2
A administração da dívida púbica federal é algo delicado nesta fase de mudanças da política econômica. A redução significativa da taxa Selic, a mudança da remuneração das cadernetas de poupança e a desvalorização do real ante o dólar afetam a administração da dívida.
Em abril ela atingiu R$ 1,88 trilhão e acusou um aumento de 1,32%, mas, ao contrário dos meses anteriores, a elevação da dívida interna (1,06%) foi menor do que a da dívida externa (7,12%), o que se deve, essencialmente, à emissão soberana de US$ 3,15 bilhões pelo Tesouro, que neste período de crise no exterior quis ter uma referência de mercado. O bônus emitido pagou um cupom de 8,50% e assegurou um retorno aos investidores de 8,60%, captado em reais.
É preciso assinalar que o aumento da dívida federal se deve essencialmente à apropriação de juros num montante de R$ 14,37 bilhões, enquanto a emissão líquida ficou em apenas R$ 4,44 bilhões, o que mostra claramente a vantagem que teria o Brasil se o superávit primário permitisse pagar um montante de juros significativamente maior.
Com as mudanças na política monetária, é necessário escolher melhor a remuneração dos títulos da dívida interna. Os títulos prefixados representam 38,55% do total da dívida interna e os vinculados a índice de preços, 33,52%, num momento em que, com a evolução da taxa cambial, fica muito difícil prever como esses índices reagirão nos próximos meses. O governo parece menosprezar o efeito da desvalorização da taxa cambial, mas já se verifica que o Banco Central está preocupado com sua evolução, que pode ter repercussões altamente negativas sobre a inflação.
É interessante notar que, nas operações de Tesouro Direto, os títulos de longo prazo, como as NTN-B indexadas ao IPCA, são os papéis mais procurados, o que comprova que os aplicadores não contam, no longo prazo, com a estabilização da inflação.
O custo médio da dívida pública, nos últimos 12 meses, ficou em 12,59%, custo sem dúvida elevado. No caso da dívida interna, houve uma diminuição, para 12,07%, ante 12,12% em março, mas aumentou bastante na dívida externa, passando de 19,18% para 25,98%, no período.
Esse custo foi pressionado pela valorização do dólar e pela desvalorização do real. A situação externa explica em parte esse crescimento, mas reflete também uma dúvida acerca dos rumos da economia brasileira. Esse custo é particularmente alto quando se leva em conta que o prazo médio da dívida pública era de 3,85 anos em abril.