Título: Tombini vê economia global fraca por 2 anos
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/06/2012, Economia, p. B4

Longe de uma solução, a crise externa fará com que mercados financeiros operem voláteis e a economia global tenha ritmo fraco em um período de até dois anos. A avaliação foi feita ontem pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. O discurso pessimista foi entendido como novo sinal de que o juro pode continuar a cair para um nível abaixo de 8%, já que a inflação deve seguir sob controle.

Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Tombini reforçou o discurso de que a economia global deve seguir em ritmo aquém das previsões. "Nosso cenário básico é que teremos ao nos próximos meses, trimestres, quem sabe nos próximos dois anos, um cenário de volatilidade dos mercados e crescimento mais baixo do que se esperava."

Tombini argumenta que os sinais de desaceleração vêm de todos os lados. Na Europa, há expectativa de fraco crescimento nos próximos anos. Nos Estados Unidos, há recuperação, mas em ritmo moderado. Na Ásia, a China tende a seguir em desaceleração em um processo de "pouso suave". No mercado, analistas preveem crescimento médio em torno de 2,3% para o mundo em 2012, nível considerado "bastante baixo" por Tombini.

Com menos crescimento, a procura por produtos e serviços do Brasil cai e ajuda a reduzir o ritmo da economia interna. Ao mesmo tempo, preços como petróleo e soja tendem a subir menos ou até cair pela menor demanda. Portanto, o cenário de Tombini aponta para menos atividade e inflação contida.

O quadro foi entendido como mais um sinal de que o ciclo de corte do juro será mais longo que o previsto e, portanto, não deve terminar em julho. Ontem, pela primeira vez, os negócios no mercado futuro passaram a embutir a possibilidade de mais de 50% de que a Selic será cortada em pelo menos 0,25 ponto em agosto, caindo para abaixo de 8%. Atualmente, está em 8,5%.

Câmbio. Tombini defendeu as ações para conter a valorização do real e afirmou que a entrada de dólares que podem sair a qualquer instante é prejudicial à economia brasileira. Para ele, o País não poderia aceitar essa entrada de recursos "de peito aberto". "Alguns chamam isso de controle de capital, mas para o BC é regulação prudencial", afirmou.

O presidente do BC reconheceu que há hoje um movimento de saída de dólares, mas afirmou não ver problemas de financiamento, pois o investimento direto ao setor produtivo é suficiente para cobrir o déficit nas transações com o exterior. Dados do BC mostram que houve saída de US$ 6,3 bilhões em maio em operações financeiras, valor mais alto desde novembro de 2008.

Apesar de ter parado de comprar dólares, o BC diz que não abandonou a política de acumulação de reservas, que hoje estão acima de US$ 370 bilhões. / COLABOROU MÁRCIO RODRIGUES