Título: Voltar à peseta seria um erro gravíssimo da Espanha
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Fonte: O Estado de São Paulo, 09/06/2012, Economia, p. B3

Ex-ministro argentino critica economistas que aconselham a Espanha a abandonar o euro e voltar à antiga moeda

"Não acredito que haverá tanta insensatez na União Europeia para deixar que ocorra um "corralito" na Espanha." Com essa frase, Domingo Cavallo, ministro da Economia da Argentina na época em que foram impostas fortes limitações para que os argentinos sacassem o dinheiro dos bancos em 2001, defendeu uma ação rápida do Banco Central Europeu (BCE) para impedir que a Espanha passe pelos mesmos transtornos.

Cavallo criticou ferozmente economistas consagrados como Paul Krugman e Nouriel Roubini, que têm defendido uma saída para a Espanha "a la Argentina", com a volta à antiga peseta. "Este é o pior conselho que pode ser dado a uma economia que está enfrentando esta crise", alertou.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Diante da situação do sistema bancário espanhol que se agrava a cada dia, o senhor avalia que a Espanha corre o risco de ter um "corralito"? Essa seria a solução para a crise espanhola?

Para a estabilidade do seu sistema financeiro, é imprescindível que a Espanha consiga o apoio do BCE porque esse é o aspecto mais problemático. Por outro lado, a Espanha está introduzindo medidas fiscais e de ajuste estrutural necessárias para sair da situação de desemprego e recessão de uma maneira genuína. O que eu desaconselho totalmente é que a Espanha abandone o euro e volte à peseta, como alguns economistas importantes estão recomendando. Isso seria um erro gravíssimo. Os problemas que hoje temos em Argentina, que são problemas graves, estão relacionados ao fato de a Argentina ter pesificado compulsoriamente sua economia em 2002. E se alguns atribuem o crescimento posterior na Argentina a essa medida de pesificação, eu sustento que o crescimento, na verdade, veio da melhora dos preços dos produtos argentinos no mercado externo, principalmente a soja.

O que aconteceria se a Espanha abandonasse o euro?

Seria um erro gravíssimo. Se a Espanha volta à peseta, em dez anos estará como a Argentina hoje ou pior. Porque a Argentina teve a grande sorte do preço da soja. A Espanha, por meio do turismo e outras atividades, poderia se beneficiar de uma forte desvalorização da moeda, mas isso produziria inflação.

Qual a sua opinião sobre uma intervenção na Espanha?

Acho que isso não ajudaria em nada. O que o país necessita é de uma definição se o BCE será um banco para toda a Europa, e não só um banco central para a Alemanha ou para os países mais fortes. O que é necessário é que seja criado um sistema financeiro comum e um banco central com um regime financeiro também comum. O problema é que a união monetária não foi complementada por uma união financeira.

Como o sr. se posiciona sobre a expropriação da Repsol da petroleira YPF na Argentina?

Esse não é um problema nem contra a Espanha, nem sequer contra a Repsol. Lamentavelmente, o governo atual crê numa filosofia econômica que determina que o governo deve decidir quanto se investe, quem investe, em que se investe, quanto se paga de dividendos. Foi essa concepção estatizante da economia que se manifestou na expropriação do pacote acionário da Repsol. E, se a empresa fosse americana ou de qualquer outro país, um governo com essa filosofia teria feito o que fez contra Repsol. Mas para mim isso é absurdo e totalmente inconveniente para a Argentina.

Pode haver novas expropriações?

É muito difícil prever o que acontecerá na Argentina porque este governo não tem nenhuma regra predeterminada.

Como o sr. avalia a situação atual do Brasil?

O Brasil, com Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma, está sendo o que todos os países têm que seguir: primeiro, respeitar as regras do jogo, proporcionar um clima de segurança jurídica e de segurança em geral, promover a continuidade geral da política com as diversas mudanças necessárias para enfrentar as situações novas que vão surgindo, mas nunca ignorando o que foi feito pelos governos anteriores. Nesse sentido, Brasil tem se saído muito bem. Ainda há muita coisa para se fazer no Brasil; há muitas reformas pela frente, sobretudo em matéria fiscal, mas não é uma economia com a desordem que tem a economia argentina hoje. E o Brasil tem respeitado as regras do jogo e o mundo acredita que vai continuar respeitando. Essa é a grande vantagem que o Brasil tem.

A mudança na imagem do Brasil nos últimos anos é seu principal atrativo para investimentos?

A mudança da imagem do Brasil e também da Argentina, em seu momento, são consequência do Plano Real e do plano de conversibilidade porque deixamos de ser economias que tinham 1.000% ou mais de inflação e passamos a ser economias estáveis. Lamentavelmente a Argentina em 2002 ignorou todo que havia sido feito nos anos 90 e por isso voltamos a ter inflação e recessão.