Título: Exportador ainda segura dólar no exterior
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/06/2012, Economia, p. B5

Nas duas primeiras semanas de junho, entrada de moeda americana foi 27% inferior à de maio

O dólar mais caro não é, necessariamente, a garantia de aumento da entrada da moeda nas transações de comércio exterior. Dados do Banco Central revelam que atualmente ocorre exatamente o contrário: mesmo com cotações na casa de R$ 2 há várias semanas, o ingresso pela mão dos exportadores é o mais baixo desde janeiro de 2011.

Levantamento feito pelo Estado mostra que exportadores trouxeram, na média, US$ 733,3 milhões a cada dia das duas primeiras semanas de junho. O valor é 27% menor que o visto em maio (US$ 1,008 bilhão por dia) e o mais baixo em 18 meses.

Em maio, mês em que a moeda chegou ao simbólico nível de R$ 2, a entrada de dólares diminuiu 42% na comparação com abril, época em que o dólar ainda estava em R$ 1,80. Ou seja, em movimento inverso, a cotação subiu e a média diária de entrada de recursos via exportações caiu.

A subida do dólar foi, por alguns meses, uma das maiores obsessões do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Para conseguir o objetivo, o governo passou a adotar medidas para "proteger" o real da chamada "guerra cambial". A estratégia contou com uma ação "pinga gotas". Mantega chegou, inclusive, a prometer novidades "toda semana".

"Exportadores que tinham recursos no exterior à espera de uma cotação melhor trouxeram grandes volumes em abril porque já estavam satisfeitos com dólar perto de R$ 1,80. Como esse estoque de recursos caiu e a urgência em trazer o dinheiro diminuiu, as transferências estão menores mesmo com a cotação em R$ 2", explica o economista da Tendências Consultoria, Bruno Lavieri.

Entre as várias maneiras que exportadores têm para trazer recursos ao Brasil, esse fenômeno é mais notado na linha de crédito conhecida como pagamento Antecipado. Nessa operação, o ingresso em junho está em US$ 90 milhões diários, o pior desde janeiro de 2011. Esse tipo de financiamento, vale lembrar, sofreu restrições pelo Banco Central em março e agora tem prazo limitado a 360 dias. Antes, não havia limite.

Fluxo. Com menos força dos exportadores, o fluxo cambial gerado pelo comércio exterior terminou os oito primeiros dias do mês negativo em US$ 284 milhões. Ou seja, a conta paga por importadores foi maior que a receita obtida por empresas que vendem ao exterior. Então, recursos saíram do Brasil.

Apesar disso, o fluxo de dólares gerado por transferências de investidores voltou a ficar no azul e US$ 1,12 bilhão ingressou nas duas semanas em operações como compra de ações e títulos de renda fixa, empréstimos e investimentos produtivos. O valor acabou compensando a saída no comércio exterior e o Brasil registrou entrada líquida de US$ 843 milhões nos oito primeiros dias de junho.