Título: A margem do sistema financeiro é estreita
Autor: Gerbelli, Luiz Guilherme
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/06/2012, Economia, p. B10

A margem dos bancos para reduzir os juros está pequena, segundo avaliação de Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). Para ele, uma nova onda de reduções só seria possível se o governo promovesse uma série de reformas. "É preciso um sistema mais inclusivo", afirma.

Como o senhor avalia essas reduções nas taxas de juros?

A taxa caiu para 6,18% ao mês e 105% ao ano porque a Selic recuou 0,5 ponto porcentual em maio. A taxa do cartão de crédito não cai faz 27 meses. A taxa anual caiu, mas ainda é bastante alta.

Porque algumas taxas não estão sendo reduzidas?

Essa redução não tem acontecido por dois motivos. Primeiro, pela estrutura de custo dos bancos brasileiros. No primeiro trimestre deste ano, as receita dos bancos foram de R$ 175 bilhões. As receitas de operação de crédito mais o arrendamento mercantil somaram R$ 103 bilhões. O lucro líquido dos bancos e do sistema financeiro como um todo, porém, foi só de R$ 15 bilhões. A margem do sistema financeiro (lucro sobre custo total) é muita estreita, de 8,6%. O que quer dizer isso? Se os bancos reduzirem o que eles cobram pelo crédito mais do que 8,6%, eles podem entrar em prejuízo. E em segundo lugar o cenário também piorou, porque está com expectativa de crescimento da economia mais declinante. Quanto menor o crescimento, maior a inadimplência.

A taxa para cartão de crédito, por exemplo não cai.

Não cai e a taxa não é divulgada pelo Banco Central. Ele divulga o volume de crédito, mas não divulga qual a é taxa.

O espaço para um nova queda dos juros está reduzido?

O espaço para novas reduções está bem reduzido. Eu acho que podem ocorrer reduções grandes se o governo fizer algumas mudanças. A relação crédito/Produto Nacional Bruto (PNB) do Brasil é 56%, a do Chile, que tem um PNB per capita parecido com o do Brasil, é de 86%. E a África do Sul, que tem um PNB per capita menor que o brasileiro, tem relação de 140%. Qual é a mágica desses dois países? É o tratamento que eles dão para o crédito. O País precisa fazer uma série de reformas, na tributação, compulsórios. É preciso fazer um sistema mais inclusivo. Com essas mudanças daria para ter uma redução grande. Para se ter uma ideia, uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial mostrou que, entre 138 países, o Brasil está no 137º lugar com a cobrança de juros mais alto. A pesquisa foi feita antes das redução, mas a redução foi pífia. / L.G.G.