Título: Regra de um para um tem debilitado indústria argentina
Autor: Palácios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/07/2012, Economia, p. B6/7
Desde fevereiro, a autorização para importar só é concedida após o empresário se comprometer a exportar o mesmo valor
Desde que iniciou seu segundo mandato, em outubro, a presidente Cristina Kirchner tem dado dor de cabeça aos empresários. O setor privado é afetado por diferentes medidas, determinadas pelo secretário de Comércio Interno, Guillermo Moreno. A principal é a "um para um", pela qual o importador é obrigado a exportar o mesmo valor. Por conta dessa regra, os empresários estão em busca de cotas de exportação e acabam caindo em armadilhas.
"Exportamos qualquer coisa para poder importar", afirmou um operador de comércio exterior, que deu o exemplo de montadoras de automóveis sem linhas de produção nacional, como a BMW que comprou cotas de exportação de arroz para continuar a vender no mercado argentino. Ou a Nissan, que optou pela exportação de vinho.
"Esse esquema não criou um mercado novo, um produto novo. A exportação só mudou de mãos e encareceu", disse Gustavo Segre, diretor da consultoria Center Group. Segundo ele, o mecanismo gerou um mercado paralelo de cotas, no qual o exportador cobra comissão de até 7% de quem quer importar. "A Argentina, inventou outra forma de inflação", sintetizou.
Desde fevereiro, o governo obriga os importadores a preencher a Declaração Juramentada Antecipada de Importações. O documento é entregue à Administração Federal de Rendas Públicas (Afip), equivalente à Receita Federal. Outro formulário semelhante é enviado por e-mail para Moreno e sua equipe. A autorização para importar só é concedida após o compromisso de exportar o mesmo valor.
Um fabricante local de bicicleta, que prefere o anonimato, usa peças importadas em sua linha de produção. Na busca de uma cota de exportação, encontrou uma proposta para exportar carvão vegetal. Mas não conseguiu chegar a um acordo com o exportador sobre a valor da comissão e não fecharam negócio.
O empresário continua com dificuldades para importar, mas respira aliviado. Algumas semanas depois, ao ler o jornal, descobriu que o embarque oferecido era, na verdade, tráfico de cocaína. A polícia descobriu carregamentos da droga escondido em sacos de carvão vegetal.
Medo. Os empresários não querem contar seus casos e expor seus nomes por medo de uma espécie de polícia de Estado. "Se reclamamos, aparecem fiscais da Receita fazendo devassa ou telefonam com ameaças", confessou um empresário da União Industrial Argentina (UIA).
A Câmara de Importadores da República Argentina (Cira) reconhece que há problemas, mas prefere não dar números. O diretor de Relações Institucionais da câmara, Miguel Ponce, limitou-se a dizer que não há critério na liberação das guias de importação. "É uma heterogeneidade infernal. Há empresas que têm todas as importações aprovadas, enquanto outras não conseguem aprovar nada", reclamou
Os operadores de comércio exterior comentam que alguns setores enfrentam mais dificuldade, como frigoríficos que fabricam embutidos e frios. "Temos 25% da capacidade instalada ociosa por falta de matéria prima que é a carne suína brasileira", comentou uma fonte. "Moreno pede um compromisso de exportação que não estamos seguros de poder cumprir porque este não é um setor exportador."
O empresário Julio Luxardo, um dos sócios da importadora Dajel, contou que não conseguiu importar este ano nenhum quilo de carne suína, de frango, e produtos elaborados como presunto cru espanhol e italiano e que "está fazendo um esforço para não demitir".
Uma empresa importadora afirma que seus pedidos de compras de mármores, granito e outros materiais de construção estão brecados. Também não entram peças de reposição para máquinas. "Faltam redutores usados na fabricação de caixas de câmbio de automóveis que vão à linha de montagem de carros e outras fábricas de montagem", disse a fonte.
"Quase tudo está parado", reclamou a fonte afirmando que, "no início, o governo aprovava entre 70% a 75% dos pedidos de importação, mas essa proporção foi caindo até chegar a 20%, nos últimos dias".
Outra empresa de importação informou que seu maior problema é liberar plataformas elevadoras que as fábricas usam para tornar a produção mais ágil e, consequentemente, ampliá-la. "Há demanda interna e externa, mas as indústrias não podem aumentar a produção porque não dispõem dos elementos necessários."
A distribuidora de produtos químicos para a indústria, Daltosur, é impedida de importar silicones. A KF Trade, que importa bens de capitais para indústrias metalúrgicas, também tem problemas. Uma das fabricantes nacionais de parafusos, a Tubulon S.A, não consegue importar bens de capital para ampliar sua produção. Até peças para aparelhos traumatológicos estão em falta na Argentina.
Médicos, fornecedores e funcionários de hospitais de Buenos Aires informaram que faltam insumos para a atenção clínica e cirúrgica: luvas, fios para sutura, seringas, placas radiológicas e outros materiais. A Associação de Clínicas e Hospitais Privados chegou a encaminhar uma carta ao Ministério de Saúde para alertar sobre o problema.