Título: Renda em alta favorece saída de aposentados e jovens do mercado
Autor: Gerbelli, Luiz, Gulherme
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/07/2012, Economia, p. B3
Mais dinheiro no bolso dos chefes de família reduz a necessidade de disputar uma vaga para reforçar a renda
O forte aumento da renda nos últimos anos está contribuindo para aliviar as pressões sobre o mercado de trabalho. Com mais dinheiro no bolso dos chefes de família, diminui a necessidade de jovens e aposentados disputarem uma vaga no mercado para complementar a renda familiar, mesmo com o avanço da inadimplência.
Nos últimos dez anos, o número de pessoas com 50 anos ou mais que não estão empregadas nem procurando uma ocupação cresceu mais do que a parcela da população nessa faixa etária, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Entre maio de 2002 e maio de 2012, a quantidade de pessoas com 50 anos ou mais consideradas não economicamente ativas aumentou 46,6% nas seis principais regiões metropolitanas do Brasil. No mesmo período, o número de brasileiros nessa faixa cresceu só 43,9%.
Não admira que, nesse período, a participação dessas pessoas na População Não Economicamente Ativa (PNEA) deu um salto de 10,8 pontos porcentuais para 43,1%, ante 32,2% em 2002. "É um baita aumento", diz o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, autor do estudo.
A população está envelhecendo porque a taxa de natalidade tem caído em um ritmo maior que o da mortalidade. Em pouco mais de 40 anos, de meados da década de 1960 até 2006, a taxa de fecundidade brasileira passou de 6,2 filhos por mulher para 1,8 filho, segundo o IBGE.
Ao mesmo tempo em que cresce o número de brasileiros mais velhos, diminui o de mais jovens. Em dez anos, a população de jovens de 15 a 17 anos encolheu quase 7%. Mesmo assim, a quantidade de pessoas não economicamente ativas nessa faixa etária aumentou 2,3%.
A fatia desses jovens no bolo da PNEA recuou 0,7 ponto porcentual. Mas, com exceção das pessoas com 50 anos ou mais, a participação das demais faixas etárias no total de pessoas que não estavam empregadas nem procurando emprego teve quedas bem maiores, que variaram de 2 a 5,5 pontos porcentuais.
"É sinal de que aquele jovem pode continuar só estudando ou aquele aposentado não precisa voltar para o mercado de trabalho, porque outra pessoa no domicílio está com a sua renda real acrescida", avalia Romão.
O poder de compra do salário médio dos ocupados andou a passos largos nos últimos sete anos. Só nas seis principais regiões metropolitanas, o ganho foi de 24%, já descontado a inflação do período. Para 2012, consultorias como a LCA projetam aumento real de 4%.
"A principal alavanca tem sido a valorização do salário mínimo, que este ano teve aumento real de 7,5%", diz Romão. Dois terços dos aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) têm seu benefício indexado ao salário mínimo.
Amortecedor. O impacto da renda no mercado de trabalho pode ter sido amortecido depois que o consumo das famílias de baixa renda passou a ser estimulado por meio da facilitação do crédito, avalia Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. "Mais pessoas tendem a procurar emprego porque a família precisa gerar uma renda maior para conseguir pagar tudo que quer consumir, especialmente quando se fala de bens mais caros, como automóveis e imóveis", diz o economista.
Para Fábio Romão, é provável que o movimento perca um pouco de força nos próximos anos, já que os ganhos do salário mínimo não deverão ser expressivos. A lei que fixa a política de reajuste do salário mínimo estabelece que o valor será reajustado com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano anterior mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes. "O PIB não deve crescer muito, a não ser no ano que vem, quando esperamos um crescimento de 4%", diz.