Título: A redução da taxa Selic levanta algumas dúvidas
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/07/2012, Economia, p. B2

Como se previa, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic para 8%, pois "neste momento permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação", e levando em conta que, "dada a fragilidade da economia global, a contribuição do setor externo tem sido deflacionária".

Se de fato se justifica, neste momento, uma redução da taxa básica, cabe indagar se conviria realizá-la já, tendo em vista a retomada da inflação no próximo ano, na previsão do próprio Copom. É necessário examinar também se as reduções da Selic tiveram os efeitos esperados sobre o custo do dinheiro.

O Copom sempre se preocupou em lembrar que suas decisões visam a uma situação futura. Ora, no seu Relatório de Inflação se admitia uma inflação de 4,4%, neste ano, e de 5,2%, no ano que vem, o que não pode deixar de se levar em conta ao fixar a Selic.

Seria de esperar, pelo menos, que a redução da taxa Selic se traduzisse por uma queda da taxa efetivamente praticada pelos bancos. Mas, em junho, segundo a pesquisa da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), as taxas de juros voltaram a subir. Para as operações com Pessoas Físicas houve, em média, uma elevação de 0,02 ponto porcentual, passando de 6,18% ao mês para 6,20%, a maior taxa desde o mês de abril. No caso de Pessoas Jurídicas, a taxa média mensal passou de 3,54% para 3,59%, sendo possível que, depois da nova redução para 8% da taxa Selic, volte a se registrar uma nova queda, embora diversos fatores possam adiar essa redução.

O governo está, de fato, restringindo a emissão de títulos da dívida pública que asseguravam aos bancos uma remuneração sem risco, vinculada à taxa Selic. É certamente uma boa iniciativa, mas que influiu negativamente nas receitas dos bancos. Essa providência foi tomada num momento em que os bancos enfrentam um aumento da inadimplência, o que lhes impõe a necessidade de manter uma reserva para enfrentar esse momento.

No 1.º semestre, no Brasil como um todo, 2,07% dos cheques emitidos foram devolvidos, o porcentual foi de 15% em Roraima e de 11,99% no Acre, ante apenas 1,54% em São Paulo. Os atrasos de pagamento de mais de 90 dias cresceram 19% neste semestre e quase metade dos vencimentos dos cartões de crédito sofre atrasos na sua liquidação. Não há dúvida de que o governo, ao reduzir os juros e ampliar o crédito, favoreceu essa deterioração da qualidade das operações.