Título: O BC acertou e o mercado errou. E daí?
Autor: Chiara, Márcia de
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/07/2012, Economia, p. B3

Há três semanas, diretores do Banco Central (BC) já celebravam, em reuniões com analistas de mercado, o início de um processo generalizado de revisões (para baixo) da inflação em 2012. O índice de junho, que mostrou alta de 0,08% do IPCA, deve reforçar ainda mais essa percepção.

Nos 12 meses encerrados em junho, o IPCA acumula alta de 4,92%. É a menor variação desde setembro de 2010. Vale sempre lembrar que a meta da inflação oficial do País é de 4,5%, com margem de tolerância de dois pontos para cima ou dois pontos para baixo. Significa dizer que, mantida a tendência, o IPCA encerrará o ano bem próximo do centro da meta.

É um cenário que o Banco Central (BC) defendia desde o ano passado - e foi duramente criticado por isso no mercado financeiro. O tempo passou e o BC mostrou que estava certo. O problema é a razão que levou o BC a acertar: desaceleração da economia brasileira bem mais forte do que qualquer analista projetava no fim do ano passado.

A paradeira que tomou conta da indústria deve jogar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano para entre 1,5% e 2,0%. Para evitar um cenário pior, o governo anunciou medidas pontuais para estimular a demanda, como a redução de impostos na venda de carros.

Na inflação, essa política significou preços ainda mais baixos, como lembrou, em relatório divulgado ontem, o diretor de pesquisa de mercados emergentes na América Latina da Nomura Securities, Tony Volpon. No texto, distribuído com o título "Obrigado, sr. Mantega", ele observou que "a principal razão para o número bem baixo (do IPCA de junho) foi o impacto dos cortes de impostos anunciados pelo ministro Guido Mantega para compras de novos veículos, que lideraram o componente de transporte no IPCA".

À parte as questões pontuais, Volpon lembrou ainda que "a inflação continua amplamente benigna e em linha com o crescimento mais baixo da economia brasileira".

Nesse ambiente, o BC parece ter mais espaço para continuar cortando a taxa básica de juros (Selic), hoje em 8,5% ao ano, nível historicamente baixo. Com isso, o desejo da presidente Dilma de ter uma taxa real de juros entre 2,0% e 3,0% ao ano caminha para se tornar realidade.

De novo, é importante observar a relação causal. Assim como a inflação, o juro real só chegará à "meta" por causa da economia frágil. Não há o que celebrar.