Título: Fornecedor da Petrobrás terá R$ 3 bi
Autor: Neder, Vinicius ; Nunes, Fernanda
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/08/2012, Economia, p. B4

Inova Petro, programa da estatal com BNDES e Finep, destina valor para financiar cadeia fornecedora de bens e serviços da empresa

A nova tentativa do governo de incentivar a recuperação industrial trará a Petrobrás outra vez no papel de âncora. Ontem, a empresa anunciou, em conjunto com o BNDES e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) a destinação de R$ 3 bilhões até 2016 para a cadeia fornecedora de bens e serviços, dentro do programa Inova Petro.

A estatal tem recorrido com frequência ao banco estatal de fomento. Desde a crise, em 2008, acumula R$ 42,2 bilhões em empréstimos, segundo levantamento do Estado - sem levar em conta os R$ 24,8 bilhões injetados pelo BNDES na capitalização de 2010. Em contrapartida, a Petrobrás reforça, a cada contrato, o compromisso de incentivo à indústria nacional.

O banco está disposto a receber das empresas propostas de projetos de bens e serviços inovadores, que serão financiados em condições especialíssimas. Enquanto a Petrobrás colocará à disposição sua infraestrutura de pesquisa para garantir que as tecnologias necessárias ao pré-sal sejam desenvolvidas no País.

"Não vamos aceitar a "tropicalização" da tecnologia", afirmou o presidente da Finep, Glauco Arbix, durante o lançamento, ontem, do Inova Petro. Ele se referia ao modelo de adaptação nacional à tecnologia importada.

Os fornecedores poderão contar com a participação direta do BNDES no investimento. Há ainda a possibilidade de receber crédito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com juros de 4% ao ano; dos fornecedores serem beneficiados por dotação por subvenção ou receberem recursos não reembolsáveis, informou o vice-presidente do banco, João Ferraz. No dia 17 de setembro será lançado o edital de chamada pública para que as empresas apresentem os projetos que pretendem desenvolver e apontem alternativas de financiamento.

A presidente da Petrobrás, Graça Foster, reforçou a intenção de dar prioridade a os fornecedores locais. "Devemos fazer isso com excelência, competitividade e melhores prazos", disse. Segundo a executiva, a contratação da indústria nacional cresceu na última década. Na área de Exploração e Produção, a participação está, em média, em 65%, em comparação ao índice de 40% a 55% de anos anteriores. Em Refino, o índice passou de 82% para 92%. Em Gás e Energia, de 70% para 90%.

Segundo mostrou reportagem do Estado, a partir de dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a participação da indústria nacional de bens de capital entre os fornecedores da Petrobrás caiu de 24% para 17% entre 2003 e 2011.

Foco. "A tônica do governo Dilma é a contratação da indústria nacional e será cada vez mais", disse o presidente da Finep. Está em estudo uma série de regulamentações que irão permitir que novas concessões impliquem na contratação de bens e serviços no mercado local.

Em um primeiro momento, o foco é a área de exploração e produção de petróleo e gás. As próximas licitações de áreas, inclusive no pré-sal, já devem trazer regras mais rígidas de contratação local.

Dos R$ 179,17 bilhões de dívida bruta da Petrobrás registrada no último trimestre, 24% são com o BNDES, que funcionou como financiador estratégico da empresa na crise de 2008. "Se a Petrobrás, com aquele tamanho todo, entrasse no mercado naquele momento seria um horror", afirmou Ernani Torres Filho, ex-superintendente do BNDES.

Para o economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), nos últimos anos, o BNDES tornou-se "financiador cativo" da petroleira. "Com isso, a Petrobrás não precisou se preocupar muito com seu valor de mercado", afirmou Almeida, referindo-se à desvalorização recente das ações da empresa. Ele defende que o banco foque em projetos de inovação, cujos valores envolvidos são menores e mais eficazes.