Título: A solução passa por obras de infraestrutura
Autor: Ciarelli, Mônica ; Durão, Mariana
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/08/2012, Economia, p. B3

Diante de um quadro de estagnação no consumo doméstico, excesso de aço no mundo e problemas de competitividade, a indústria siderúrgica nacional congelou US$ 17,4 bilhões em investimentos para ampliação de capacidade produtiva. Previstos para entrar em atividade até 2017, os projetos agora não têm data para sair do papel, diz o novo presidente do conselho diretor do Instituto Aço Brasil (IABr) e diretor superintendente da Votorantim Siderurgia, Albano Vieira. Ele revelou que o setor opera hoje com 32% de capacidade ociosa, bem acima da média histórica de 15%. "Dinheiro disponível no mundo tem, mas é preciso ter mercado para fechar a equação", diz Vieira.

O que levou à suspensão dos US$ 17,4 bilhões em projetos do setor no Brasil?

Temos 32% de ociosidade na produção de aço bruto hoje. A média histórica é de 15%. Temos rápida capacidade de reação: um projeto leva 36 meses para maturar no upstream (aço bruto) e no máximo 24 meses no downstream (produtos acabados). À medida que o mercado acelerar, a capacidade vai aparecer. Com essa ociosidade, (os projetos) não vão sair do papel. A maioria desses investimentos era para exportação, em operações como a da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA, controlada pela alemã ThyssenKrupp e pela Vale, que exporta placas para laminação no exterior e está à venda após resultados frustrados). Com o mercado ofertado no mundo todo, isso fica sem demanda. Havia expansões previstas para atender ao mercado doméstico. Como ele não cresceu, elas ficam "on hold" (suspensas).

Qual o fator fundamental para acelerar o consumo de aço?

Obras de infraestrutura e construção civil. No Japão e nos Estados Unidos, a metade do consumo de aço vem da construção, muito mais que indústria automobilística e linha branca. No Brasil, (a construção) está em torno de 30%. Esse vai ser o motor do crescimento. A gente está há anos no Brasil com um consumo de aço na faixa de 100 quilos/ano por habitante. Na China, chega a 450 quilos. Se o patamar subir para 50% (na construção), vamos chegar perto de 200 quilos. É nossa expectativa com obras do PAC e de infraestrutura. Não consigo dormir sossegado sabendo que Chile e México consomem mais aço per capita que o Brasil.

O governo já anunciou uma série de medidas de estímulo...

As ações foram boas. A redução do IPI (imposto sobre produtos industrializados), por exemplo, aumentou as vendas de automóveis e linha branca. Mas a solução definitiva passa por obras de infraestrutura, com obrigatoriedade de compra de insumos nacionais. O governo tem falado disso, mas esperamos que o processo seja mais rápido.

Qual o peso do custo Brasil na decisão de investimento?

Uma usina integrada custa hoje no Brasil US$ 1.800 por tonelada de capacidade instalada. Na China, é um terço disso. Significa que, para ter o mesmo retorno, aqui você tem de ter uma margem de geração de caixa quase três vezes maior. Com o atual cenário de preço, custo e demanda, ninguém em sã consciência vai dizer que tem retorno. O momento é de preservar o caixa, mas, se tiver um "milagre nacional" de novo e aparecer em um ano uma quantidade imensa de obras de infraestrutura, todas as empresas que estão preservando o caixa vão investir. Dinheiro disponível no mundo tem, mas é preciso ter mercado para fechar a equação.

O excedente de mais de 500 milhões de toneladas de aço no mundo pressiona ainda mais?

Certamente. Essa capacidade ociosa está centrada no mundo ocidental. A China e outros países asiáticos utilizam hoje 80% de sua capacidade. Na Europa é de 60%; nos Estados Unidos, em torno de 70% e aqui, de 68%. A sobra está em nossa geografia. O risco é muito grande. Existem práticas de subsídios para exportação em alguns países. As empresas no ocidente estão buscando mercado. E onde ainda há algum mercado no ocidente? No Brasil. É um elemento complicador.