Título: Queda de desmatamento resultou em diminuição de 57% das emissões de CO2
Autor: Girardi, Giovana
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/08/2012, Vida, p. A19

A queda no desmatamento da Amazônia de 2004 até 2011 per­mitiu uma redução de 57% nas emissões de gases-estufa brasi­leiras provenientes da região. O dado foi anunciado ontem pe­lo Instituto Nacional de Pesqui­sas Espaciais (Inpe), com base em um novo sistema de análise das emissões, o Inpe-Em.

O modelo, que começou a ser desenvolvido há três anos, ofere­ce um detalhamento maior da si­tuação por região e também ao longo do tempo. Ele combina in­formações de satélite do sistema Prodes, do Inpe, que oferece anualmente as taxas de desmata­mento, com mapas do total de biomassa que tem na região.

A diferença em relação ao mo­delo tradicional é que esse traba­lha com um cálculo simples: taxa de desmatamento x biomassa média (quantidade de matéria ve­getal) x porcentagem de carbono dessabiomassa. "O novo sistema não só considera que as regiões são muito heterogêneas como o fato de que todo o carbono pre­sente naquela biomassa não é emitido no instante do desmata­mento. Parte é queimada, parte fica ainda um tempo no solo, na raiz, na madeira que foi retirada. A inovação foi incorporar esse processo ao arcabouço espacial", explica Ana Paula Aguiar, do Cen­tro de Ciência do Sistema Terres­tre, coordenadora do projeto.

Isso significa que as emissões continuam ocorrendo mesmo após o desmate. Se fosse feito so­mente o cálculo simples, por exemplo, a redução de emissões teria sido de quase 74%, em vez dos 57% indicados no novo traba­lho. A metodologia foi publicada na revista Global Change Biology.

Alerta. O trabalho também con­seguiu provar uma suspeita que já existia sobre o avanço do des­matamento - ele está seguindo na Amazônia em direção a áreas com maior biomassa. Isso signifi­ca que uma mesma quantidade de desmatamento no cenário atual acaba emitindo mais gás carbônico do que emitia anos atrás. "Tanto que é por isso que o des­matamento caiu numa taxa maior do que o caíram as emis­sões", afirma o pesquisador Jean Ometto, coautor do trabalho. Por exemplo, a média de biomas-sa das áreas totais desmatadas en­tre 2002 e 2006 foi de 199 toneladas/hectare enquanto a de 2006 a 2011 foi de 214 toneladas/hectare.

"Percebemos isso nos cálculos, mas já era de se imaginar por­que a região do arco do desmata­ mento faz fronteira com o Cerra­do, que tem mesmo menos biomassa. Mas as frentes de desmatamento agora avançam para on­de tem mais biomassa. O que nos dá um alerta para o futuro. Se a trajetória atual se inverter e o desmate voltar a crescer, seu impacto sobre as emissões será maior do que as emissões históri­cas", complementa Ana Paula.

Maior fatia. Tradicionalmente o desmatamento da Amazônia foi responsável pela maior fatia das emissões de gases-estufa do Brasil, contribuindo para deixar o País entre os cinco maiores emissores do planeta.

Ainda não dá para saber quan­to a redução já medida está im- pactando no total brasileiro por­que não foi feito um novo inven­tário das emissões nacionais. No que existe, de 2009, referente a dados de 2005, o desmatamento da Amazônia respondia por 55%. Mas imagina-se que essa compo­sição deve agora mudar porque o País está vivenciando um aumen­to da contribuição dos setores de transporte e de energia com combustíveis fósseis.

De acordo com Ometto, po­rém, considerando somente es­ses dados de 2005, a redução do desmatamento da Amazônia em relação à média histórica já apon­ta para uma queda de 22% no to­tal das emissões do País.