Título: Crise leva regiões da Espanha a entrar na fila por socorro
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/09/2012, Economia, p. B14
Catalunha pede 5 bi para pagar dívidas até o fim do ano e deve ser seguida por Comunidade Valenciana, Aragão, Múrcia e Andaluzia
Em Cáceres, em pleno tórrido verão espanhol, funcionários da prefeitura foram obrigados a desligar os aparelhos de ar-condicionado em certos momentos do dia. Em Canárias, salas de cirurgias só funcionam pelas manhãs e, na Catalunha, médicos estão sendo orientados a não pedir exames de pacientes. No governo de Castela-Mancha, a ordem foi a de vender carros oficiais e cortar pensões de viúvas.
Na administração pública de Alicante, 80% dos telefones fixos foram desativados, enquanto Astúrias eliminou mil linhas de celulares usados pelo governo. Já em Girona, motoristas estão enfrentando uma ameaça: os semáforos foram desligados entre as 22 horas as 6 da manhã para economizar gastos.
De norte a sul, de leste a oeste, os governos regionais e prefeituras da Espanha estão quebrados e as medidas que se multiplicam marcam um país que, depois de anos de crescimento, está hoje falido e com metade de sua juventude sem emprego.
Socorro. Na semana passada, a Catalunha foi a primeira região a pedir socorro a Madri, com um resgate de 5 bilhões para conseguir chegar até o fim do ano. Mas a fila de governos que pedirão o socorro não para de crescer e cria uma situação ainda mais difícil para um governo central que já não tem dinheiro e foi obrigado a pedir, por sua vez, um resgate da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
No total, esses governos e suas estatais locais somam uma dívida de 184 bilhões, criando uma pressão ainda maior sobre o país, que vive sua segunda recessão em três anos e ainda reabrindo velhas disputas políticas entre regiões que insistem em obter independência em relação ao reino espanhol.
Dados oficiais apontam que a dívida das comunidades autônomas (termo usado para designar as províncias do país) é recorde e já representa 13% do PIB espanhol. Entre 2010 e 2011, por mais que os cortes tenham ocorrido, ela subiu ainda 17%, bem acima do crescimento da dívida da administração central.
Economistas apontam que, de uma certa forma, os governos locais sofreram ainda mais que Madri com a eclosão da bolha imobiliária. Isso porque diversas prefeituras e mesmo governos regionais passaram a contar com a renda de construtoras para pagar quase a metade de seu orçamento. Quando esse setor desapareceu, os ingressos desses locais desabaram.
A Catalunha é a que tem a maior dívida, com 42 bilhões. Madri vem em segundo, com 16,5 bilhões, seguida pela Comunidade Valenciana, com um buraco de 15,3 bilhões. As prefeituras também acumulam mais de 10 bilhões de dívidas.
Não por acaso, a lista de governos regionais que buscam ajuda cresce a cada dia. Nas próximas semanas, Comunidade Valenciana, Aragão, Múrcia e Andaluzia devem pedir um resgate do governo central.
Educação. Mas, até que recebam o prometido dinheiro, estão tendo de tomar medidas drásticas para conseguir sobreviver. O impacto em diversos setores já é evidente. Na educação, praticamente todas as regiões vêm exigindo dos professores que trabalhem mais horas para evitar novas contratações e compensar demissões, como na Andaluzia.
Dezenas de universidades, como na Cantábria, tiveram seus orçamentos cortados. A Comunidade Valenciana cortou verbas para o ensino de música e 62 conservatórios estão ameaçados. Na Galícia, não há mais livros gratuitos para 25% dos alunos.
Na região da Catalunha, mil professores foram demitidos e 33 dos 34 centros de formação de professores foram fechados. Em Valência, a prefeitura suspendeu o Festival de Cinema. Em Madri, a ajuda do Estado para festivais culturais foi cortada pela metade e os orçamentos de museus sofreram redução de 18%.
A partir deste ano, o Estado passou a cobrar taxas de matrículas para berçário e a elevar as taxas de universidade. No total, 40 novos impostos foram criados apenas na região de Madri.
Saúde. Na saúde, a política de austeridade também vem gerando controvérsias. Cidades suspenderam os serviços gratuitos de ambulâncias para economizar gasolina. Em Badalona, cidade vizinha a Barcelona, enfermeiras revelaram ao Estado que médicos foram instruídos a dar altas o mais rapidamente possível aos pacientes e a "não exagerar" no pedido de exames.
Quarenta mil funcionários do sistema de saúde terão seus salários reduzidos neste ano e a ajuda que o Estado dá a centros para descapacitados foi cortada em 50%. Asilos também foram atingidos pela medida de redução de custos. "Se não bastasse, o governo colocou à venda clínicas, aparelhos médicos e até mesmo carros dos hospitais", contou uma enfermeira, em condição de anonimato. Em Madri, o programa de ajuda a dependentes tóxicos sofrerá um corte de orçamento de 35% neste ano.
Para as cidades menores, a crise se transformou em um verdadeiro inferno. La Coruña decidiu suprimir todos os carros oficiais e parou de dar seguro médico aos vereadores. Paterna reduziu de forma drástica o número de linhas de ônibus que servem a cidade e eliminou o serviço de ambulância 24 horas. Isso tudo para ajudar a cortar o orçamento da prefeitura em 40%. Em Ontinyent, a verba para limpeza da cidade foi reduzida em 20%.
Na Ciudad Real, a intensidade de luz nas ruas foi reduzida em um terço. As fontes da cidade são ligadas apenas nos fins de semana. Em León, o cargo de vice-prefeito foi abolido e, em Cacabelos, a prefeitura já avisou: em 2012, não haverá luzes de Natal.