Título: Fed amplia aposta para reanimar economia dos EUA
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/09/2012, Economia, p. B12

Banco Central americano gastará US$ 40 bi por mês na compra de títulos imobiliários e manterá juros baixos até meados de 2015

Sem perspectiva de melhoria na atividade econômica e garantido pelas estimativas de inflação baixa em longo prazo, o Federal Reserve anunciou ontem seu terceiro e mais vigoroso programa de aumento de liquidez desde 2010.

O banco central americano comprometeu-se a comprar US$ 40 bilhões em títulos da dívida imobiliária por mês e a dar continuidade a essa política indefinidamente, até que o mercado de trabalho melhore.

A reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) trouxe mais duas decisões monetárias para acelerar o ritmo de expansão da economia. Primeiro, a preservação do pacote de compra de títulos de longo prazo do Tesouro pelo Fed, com recursos originados da quitação de dívidas imobiliárias em seu poder, até o fim do ano.

Essa medida, somada à nova compra mensal de US$ 40 bilhões, permitirá a injeção de US$ 85 bilhões ao mês na economia americana até dezembro. A segunda decisão do Fomc foi preservar a taxa básica de juros entre zero e 0,25% ao ano, como já faz desde dezembro de 2008. A diferença, desta vez, é que o Fomc decidiu manter as taxas de juros atuais, em níveis mínimos, até meados de 2015. Anteriormente, a decisão era manter as taxas até o fim de 2014.

O presidente do Fed, Ben Bernanke explicou ser o novo programa a "principal política de rua" para estimular a geração de empregos. A Casa Branca continua de mãos atadas para novos pacotes de estímulo fiscal. Contaminada pela disputa eleitoral deste ano, a maioria na Câmara dos Deputados se opõe a essa iniciativa, sob a alegação de causar aumento nos gastos públicos.

Motivação. Bernanke teve o cuidado de explicar que o novo pacote de US$ 40 bilhões foi desenhado para motivar investidores e consumidores, mas também para melhorar as condições da oferta de crédito imobiliário, de forma a mover os setores mais castigados pela crise de 2008. A principal preocupação, porém, foi não provocar pressão inflacionária. "Se a inflação subir acima da meta, tomaremos medidas para equilibrá-la. O Fed está totalmente comprometido com ambos os lados de seu mandato: a estabilidade de preços e o máximo emprego", enfatizou.

Conforme insistiu, a taxa média de inflação tem se mantido próxima da meta de 2% ao ano, e a expectativa de longo prazo de variação dos preços ao consumidor se mantém "bastante estável". As novas projeções do Fed, divulgadas ontem, indicam inflação entre 1,7% e 1,8% em 2012.

O Produto Interno Bruto (PIB) real aumentará, no máximo, 2% neste ano - 0,4 ponto porcentual menos do que o projetado em junho passado. A taxa de desemprego, de 8,1% em agosto, fechará o ano entre 8% e 8,2%.

"O Fomc está preocupado que, sem mais políticas de acomodação, a economia não deve crescer de maneira forte o suficiente para gerar uma melhoria sustentável nas condições do mercado de trabalho", avaliou o comitê, segundo nota do Fed.

Embora o consumo das famílias continue a aumentar, houve queda no investimento produtivo, e os setores da construção e imobiliário ainda se recuperam da depressão, segundo o Fomc. O comitê considerou outras duas ameaças à vulnerável economia americana: o agravamento da crise fiscal na Europa e uma possível resposta negativa do Congresso ao aumento do teto de endividamento público dos EUA no fim deste ano.

Eleição. Além de manter as injeções mensais de US$ 40 bilhões na economia por tempo indefinido, o Fed deixou claro que poderá "realizar compras adicionais de ativos e empregar outros de seus instrumentos de forma apropriada até que a melhoria seja alcançada em um contexto de estabilidade de preços". "Para determinar o tamanho, o ritmo e a composição dessas compras de ativos, o Fomc levará em conta, como sempre, a eficácia e os custos dessas compras", informou o Fed em seu comunicado.

No contexto da eleição presidencial de novembro, a oposição republicana alegou ser a decisão do Fed a prova da falência da política econômica do presidente e candidato à reeleição Barack Obama. "Depois de quatro anos de estagnação, de queda na renda, de aumento de custos e de persistente desemprego elevado, a economia americana não precisa de mais medidas artificiais e ineficazes. (A política) deveria criar riqueza, não imprimir dólares", afirmou Lanhee Chen, conselheiro do candidato republicano, Mitt Romney.

Bernanke já havia respondido, horas antes, a essa previsível argumentação. "Tentamos ser apartidários e apolíticos, para tomar nossas decisões com base inteiramente na economia", afirmou. "Simplesmente não levamos esses fatores (político-eleitorais) em conta." / COM REUTERS