Título: Entre Serra e Dilma, Kassab mira 2014
Autor: Frazão, Felipe
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/10/2012, Nacional, p. A6

Nunca antes caiu tão bem ao prefeito de São Paulo, Gilber­to Kassab, dizer que o PSD - partido que idealizou e do qual é presidente - não e "nem de direita, nem de esquerda, nem de centro". O mantra kassabista é ser "independente" até a definição do quadro elei­toral de 2014. Serve como avi­so ao aliado e candidato a pre­feito José Serra (PSDB) e à pre­sidente Dilma Rousseff, de quem tem se aproximado. Na capital, o prefeito apoia Serra. Fora, ajuda Dilma. E espera re­compensa de ambos.

Tratado como "querido ami­go" por Dilma, Kassab deve ga­nhar a indicação de um ministé­rio na reforma que a presidente promoverá no início de 2013. O PSD tem uma lista de quadros que considera ministeriáveis-al­guns já teriam sido sondados. Es­tão nessa listão ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, a senadora Kátia Abreu (TO), o líder da sigla na Câmara, Gui­lherme Campos (SP), e os vice-governadores de São Paulo, Guilherme Afff, e da Bahia, Otto Alencar. Todos de prontidão para um convite de Dilma.

No Congresso, o partido já se comporta quase como base. Até agora, a bancada do PSD votou imais com a presidente do que contra Dilma. Dos 49 parlamentares, 32 têm taxa de govemismo - votam com o governo - maior que 75%, como mostra levanta­mento do Estadão Dados.

O partido de Kassab ganhou pe­so nas eleições municipais. No Brasil, garantiu até agora 493 pre­feituras e um eleitorado de 7,5 mi­lhões de habitantes. O melhor de­sempenho foi na Bahia, governa­da por Jaques Wagner (PT), que tem Alencar na vice: elegeu 72 prefeitos.

Em São Paulo, o PSD elegeu 33 prefeitos até agora - resultado tí­mido para quem cogita concor­rer ao governo em 2014 contra a reeleição de Geraldo Alckmin, do PSDB, que tem 173 prefeituras e lidera entre os partidos.

Capital. Esse plano depende do resultado do 2º turno na capital. Uma derrota de Seira abalaria ainda mais a imagem da mal ava­liada gestão Kassab - ruim ou pés­" sima para 48% dos paulistanos e desaprovada por 65%, segundo o Ibope. E provocaria reações em sua base de apoio, porque mem­bros do partido e vereadores per­deriam cargos. Poderia até fazer com que Kassab não se lançasse candidato daqui a dois anos.

O prefeito havia deixado claro ao PT que estaria na aliança do candidato Fernando Haddad, es­colhido por seu mais próximo in­terlocutor petista, o ex-presi­dente Luiz Inácio Lula da Silva, caso Serra não entrasse na elei­ção municipal

Com o tucano na disputa, Kas­sab tornou-se alvo dos adversá­rios de Serra no 1.° turno e sabe que Haddad manterá a carga até a votação final, no dia 28. Pontos fracos de sua gestão - como os três hospitais prometidos na campanha de 2008 e não entregues, a fila por vaga em creches e a não construção dos corredores de ôni­bus - serão explorados pelo petis­ta. Kassab, que costurou para Serra as alianças com PV e PR desde o 1.° turno, pediu a vereadores elei­tos de sua base que pressionas­sem Serra a defendê-lo nos 15 dias ; de campanha que restam, citando marcas de seu governo.

Contra a ofensiva até o fim do 2º turno, o prefeito vai afirmar que a gestão de Marta Suplicy (2001-2004) foi pior, mas não pretende aumentar sua participação na campanha do candida­to aliado, preferindo a atuação nos bastidores. Até aqui, Kassab, limitou-se a responder pontualmente às críticas dos adversários em entrevistas, às vezes por iniciativa própria e sempre res­paldado por dados da Prefeitura. Teve postura mais ríspida, por exemplo, com Celso Russomanno (PRB) do que com Haddad.

Nos dois comícios que fez com Serra, na zona sul e na zona leste, na última semana da campanha, fez discursos curtos. Passou quase despercebido. Limitou-se a elogiar Serra e enumerar feitos de suagestào, sem mencionar nenhum adversário.

Agrados. Na costura das alian­ças políticas para as eleições mu­nicipais, Kassab fez uma série de agrados ao PT. A pedido de Dilma, interveio no diretório do PSD de Belo Horizonte (MG) e alinhou o partido à candidatura do ex-ministro Patrus Ananias (PT), incentivada por Lula e pela presidente, em vez de se manter com o prefeito Mareio Lacerda (PSB), apoiado pelo tucano Aécio Neves.

Para Kassab, ali estava dese­nhado o jogo político nacional de 2014: Aécio versus Dilma. E ele deu, publicamente, seu passo à esquerda da propagada "inde­pendência".

Forçar o PSD de Belo Horizon­te a apoiar o PT, mesmo tendo car­gos no governo tucano, fez "um estrago" e criou "arestas até hoje não reparadas", admite um líder do partido. Kátia Abreu abriu uma dissidência em carta pública e se mantém licenciada do parti­do. O então vice-presidente nacional Roberto Brant se desfiliou. O PSD ainda aguarda uma contra­partida do PT.

Em Campinas, reduto eleito­ral de Guilherme Campos e uma das principais cidades do inte­rior paulista, o PSD esteve desde o início ao lado do petista Mar­cioo Pochmann, contra Jonas Donizette (PSB) e o PSDB.

Na Grande São Paulo, Kassab também fez o partido ajudar o PT a manter o "cinturão verme­lho". O PSD compôs com o PT nas principais cidades do ABC, berço do sindicalismo petista e região cara ao partido. Esteve nas coligações de São Bernardo e Santo André. Em Osasco, fler­tou ser vice na chapa petista. Mas terminou por lançar uma candidatura auxiliar à do PT, pa­ra blindar ataques ao então candidato João Paulo Cunha, que de­pois renunciou por ser condenado no julgamento do mensalão.

Kassab segue de mãos dadas com Serra. Mas cercado e de olho no PT.