Título: Produção cai 1% e levanta dúvidas sobre a recuperação da indústria
Autor: Amorim, Daniela ; Rehder, Marcelo
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/11/2012, Economia, p. B3
Produção cai 1% e levanta dúvidas sobre a recuperação da indústria
A produção industrial caiu 1% na passagem de agosto para setembro, depois de três meses seguidos de alta, o que lança dúvidas sobre a esperada recuperação do setor neste fim de ano e início de 2013. A queda teve perfil disseminado, o que comprova uma perda de ritmo na produção no mês, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A fabricação de bens de capital também registrou retração, o que sinaliza uma redução nos investimentos.
"A recuperação teve fôlego curto", afirmou Thaís Zara, economista-chefe da consultoria Rosenberg & Associados. Para ela, a melhora nos últimos meses ocorreu por causa do pacote de benefícios fiscais concedidos à industria, principalmente de automóveis. "Foi só um movimento de antecipação de consumo, o que não representa um novo patamar de vendas", disse a economista.
O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, pondera que o dado ruim de setembro não pode ser analisado como indicador de tendência. "É problemático, porque setembro teve só 19 dias úteis, coisa raríssima de acontecer." A última vez que setembro teve tão poucos dias foi há cerca de cinco anos. Da mesma forma, a base de comparação foi inflada, pois agosto teve 23 dias úteis, "número anormalmente alto para o período".
Embora o cálculo do IBGE inclua um ajuste para amortecer as desigualdades entre os meses, a diferença de dias úteis entre agosto e setembro, de acordo com a série histórica, é, em média, de só um dia e meio.
"A diferença de quatro dias não foi captada pelo IBGE e isso provocou uma volatilidade muito grande, com a produção crescendo 1,7% em agosto e caindo 1% em setembro", frisou Bráulio. "Nossas estimativas para outubro indicam que a produção deve ter crescido perto de 1%."
Mesmo assim, em 2012, a indústria não escapa do território negativo. As previsões são de recuo em torno de 2%. Para o ano que vem, o resultado levanta temores de um crescimento do PIB abaixo do esperado e corrobora a expectativa por taxas de juros ainda baixas.
Em setembro, uma série de fatores contribuiu para o desempenho ruim. "Mas a magnitude da perda revela que o mês foi marcado por um menor dinamismo na produção", disse André Macedo, gerente de Coordenação de Indústria do IBGE.
Em setembro, 16 das 27 atividades pesquisadas registraram retração. As perdas mais importantes foram de alimentos (-1,9%) e bebidas (-2,2%), outros produtos químicos (-3,2%), veículos automotores (-0,7%) e máquinas e equipamentos (-4,8%).
O desempenho da indústria tem sido afetado por questões estruturais e conjunturais, diz o economista Leonardo Carvalho, pesquisador do Ipea. Entre os entraves estão o aumento do custo do trabalho e a restrição ao reajuste de preços de produtos por causa da concorrência com importados, o que pode ter diminuído a margem de lucro do setor. Outro fator que tem afetado o humor dos empresários é a crise em países desenvolvidos.
Uma das consequências desse cenário foi a queda de 0,6% na produção de bens de capital em setembro ante agosto. Em relação a setembro de 2011, o recuo foi de 14,1%. "Toda a parte de bens de capital está mostrando perdas importantes. Isso sinaliza menores investimentos", afirmou Macedo, do IBGE.