Título: Ex-diretor do BC vê pressão sobre bancos pequenos e médios
Autor: Macedo, Fausto
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/11/2012, Economia, p. B4

Para Mesquita, BC mexeu no compulsório por conta do impacto da crise no fluxo de liquidez do sistema financeiro do País

O economista e ex-diretor do Banco Central, Mário Mesquita, afirmou que "há pressão sobre bancos pequenos e médios" no Brasil, em função dos efeitos da crise internacional sobre o País, que causa impactos no fluxo de liquidez do sistema financeiro nacional. Ele citou que esses feitos ocorrem, "uma vez que a decisão do BC de compra de ativos", destacou, referindo-se a medidas adotadas anteontem pela autoridade monetária.

O Banco Central alterou regras de compulsórios sobre depósitos a prazo, que teria como foco incentivar o uso das Letras Financeiras e adequar a norma ao crescimento natural do patrimônio dos bancos, levando em conta sua rentabilidade nos últimos dois anos. O BC ressaltou que a ação não tem como meta auxiliar instituições com problemas de liquidez. As declarações de Mesquita foram feitas no painel Juros Baixos no Brasil - Efeito temporário ou permanente?, no 4.º Western Asset Debates.

O ex-diretor do BC disse que a crise internacional causou uma nova realidade na atividade global, na qual é preciso compreender que a capacidade de crescimento dos EUA está ao redor de 2% e, do Brasil, perto de 3,5% - porcentagem que, para ele, é o PIB potencial doméstico. Em função disso, há uma boa dose de "experimentalismo" das autoridades internacionais na gestão da política econômica, o que também ocorre no País, propiciando "adaptações" sobre o tripé de metas de inflação, câmbio flutuante e rigor fiscal com geração de superávit primário.

Perguntado pela Agência Estado sobre quais seriam essas "adaptações" no tripé macroeconômico, Mesquita preferiu não entrar em detalhes. O ex-diretor do BC fez uma defesa do regime de metas de inflação no Brasil. "Ele aumentou a previsibilidade da economia, o que é positivo para alongar os investimentos."

Juros. Mesquita afirmou ainda que "os juros reais baixos vieram para ficar até o fim do mandato da presidente Dilma Rousseff em 2014 ou 2018". Segundo ele, essa taxa, descontada a inflação, deve variar de 2% a 4%. "Há mais dúvidas sobre a variação da taxa de juros nominal", ponderou.

Segundo Mesquita, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deve fechar no próximo ano entre 3,5% e 4%. Ele estima que o IPCA deve subir em 2012 e 2013 ao redor de 5,5%. "Nesse contexto, a Selic deve ficar estável pelo menos até o final do ano que vem", ponderou.

Mesquita disse ainda "se os juros tiverem de subir, isso deverá ocorrer só no início de 2014. O uso dos juros não seria instrumento prioritário para o governo conter a inflação. Seriam utilizados também medidas macroprudenciais, com foco no crédito, e até a taxa de câmbio", ponderou. "Câmbio ao redor de R$ 2,00 é o mais provável para 2013", comentou.

Ele disse que a inflação tenderia a atingir o teto da meta de 6,5% no próximo ano, mas isso não deve ocorrer porque o Poder Executivo deve utilizar uma séria de ferramentas, especialmente fiscais, para conter essa perspectiva de elevação dos preços ao consumidor. "O IPCA tenderia a 6% ou 6,5% em 2013, mas o governo utilizará instrumentos", destacou. Entre as medidas que a administração Dilma Rousseff poderá empregar, segundo ele, seriam a redução dos preços de energia e dos combustíveis.