Título: Na pequena Itaocara, um camponês no poder
Autor: Frazão, Felipe
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/11/2012, Nacional, p. A10

Chamavam ele de doido, barraqueiro. No dia da eleição, 7 de outubro, uma frase estampava a camisa de seus apoiadores: “Se votar no 50 é ser louco, por favor me interne”. Aos 49 anos, o ex-cortador de cana Gelsimar Gonzaga, sindicalista, foi o primeiro prefeito eleito do PSOL no País, já no 1.º turno. Candidato em Itaocara, no norte fluminense, eleteve 6.796 votos (44,26%). Agora, promete fazer um governo popular. Tido como radical no próprio partido, está sendo “vigiado” pelo PSOL. Na cidade de 23 mil habitantes, tornou-se figura folclórica.No seu Fusca 73 equipado com caixa de som– a grande arma na campanha–, ele agitava Itaocara em manifestações do Sindicato dos Servidores Municipais, que fundou há 18 anos e do qual foi o único presidente. Para indicar seus secretários, prometeu uma nova fórmula– e a usou na quarta-feira: convocou servidores de saúde e educação para a “escolha” dos chefes das duas pastas. Disse que indicaria os nomes e abriria a votação– quem não concordasse poderia sugerir outro nome. Não foi bem assim. Mais da metade das pessoas levantou as mãos em aprovação aos indicados, sem espaço para manifestações contrárias. Desde a semana passada, dois diretores do PSOL – um de Belém outro de Macapá – estão em Itaocara, acompanhando cada passo de Gonzaga, que garante ter “total liberdade”. “Essas prefeituras (de Itaocara e Macapá)têm de ser do PSOL”, disse a presidente do partido no Rio, Janira Rocha. “Não podemos permitir que elas sejam administradas pelas correntes.”Para Janira, Gonzaga e Clécio Luis, eleito em Macapá, representam duas correntes opostas no PSOL, com duas diferenças: Gonzaga é contra alianças com partidos que não sejam “de esquerda” e financiamento de campanha.

Já Clécio foi apoiado no 2.º turno em Macapá pelo DEM e por parte do PSDB e afirmou esta semana que o PSOL deveria considerar receber doações de bancos e empreiteiras. Gonzaga diz nada ter a ver com Clécio: “A começar pela campanha, como ele se elegeu e como me elegi. Medimos um governo pela eleição, é onde a corrupção começa.” Mulato de olhos verdes, católico e vascaíno, Gonzaga cortou cana dos 7 aos 14 anos para ajudar os pais. No Rio, conheceu o sindicalismo, filiou-se ao Sindicato dos Bancários e conta: “Ajudei a fundar o PT”, partido que ele deixou em 2004, solidário com Heloísa Helena, expulsa pelos petistas. Disputou seis eleições, até vencer esta. Com renda familiar de R$ 1,5 mil, assim que venceu já prometeu reduzir o salário de prefeito, de R$ 15mil. Não definiu o valor, mas avisou que não precisava de tanto dinheiro. Não esconde a decepção com o PT .“Fizemos tudo pelo (ex-presidente) Lula. Passamos fome, frio e sede.” Define Lula como “uma pessoa boa para o sistema capitalista mundial”. Já a presidente Dilma ele elogia, com ressalvas: ela “é do PT e faz o que o partido resolveu”

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