Título: Lula evita falar sobre acusações de Valério
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/12/2012, Nacional, p. A6

Em Barcelona, onde foi receber um prêmio, ele diz que continua na política por ter profunda crença" na humanidade

"Pergunta para ele". Essa foi a única resposta dada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ser bombardeado com perguntas sobre se ainda acreditava que Marcos Valério estava mentindo, mesmo depois de o empresário afirmar que entregou provas ao Ministério Público que mostrariam o envolvimento do ex-presidente nos episódios denunciados. A informação foi publicada ontem pelo jornal Folha de S. Paulo.

Apesar de fugir da imprensa durante todo o dia de ontem em Barcelona e até usar os corredores da lavanderia do hotel para não ter de enfrentar os repórteres,Lula voltou a garantir: "Continuo a fazer política."

Ele esteve em Barcelona para receber um prêmio de R$ 215 mil, um dia depois de levantar, em Paris, a possibilidade de voltar a ser candidato. Ontem, voltou a repetir que não deixou a política. "Existem várias formas de fazer política. Até dois anos atras, fiz política através de processos eleitorais democráticos", disse. "Encerrados dois mandatos eletivos de presidente, continuo a fazer política porque tenho uma crença profunda na humanidade", afirmou. "Meu papel político, agora, é pregar que o desenvolvimento de um País deve representar a prosperidade de todos seus cidadãos."

Lavanderia. Apesar de garantir que não sairá da vida pública, o ex-presidente foi obrigado a recorrer aos corredores da lavanderia de um sofisticado hotel de Barcelona para fugir da imprensa. Ele se recusou a falar do escândalo revelado pelo Estado que o envolveria no mensalão.

O esforço para evitar a imprensa incluiu, ao chegar ao hotel, um forte esquema de segurança. Ao sair do quarto, sabendo que os jornalistas estavam no lobby do hotel, a saída foi usar corredores internos, passando pela lavanderia do edifício - que o conduzia até uma porta de serviços com acesso para a rua. Lula chegou a ser alertado por seus assessores de que jornalistas tentavam falar com ele. O : ex-presidente, então, virou o rosto rapidamente e entrou no carro.

Segundo a assessoria do governo catalão, houve uma recomendação da comitiva brasileira para que sua agenda fosse mantida em total sigilo, assim como o hotel onde se hospedaria. Após o evento, Lula voltou a ser abordado pela imprensa, e sequer olhou para os jornalistas, que o questionavam sobre os episódios divulgados pela imprensa brasileira -incluindo a frase atribuída a Marcos Valério de que ele teria provas de seu envolvimento. Só parou quando um jornalista conseguiu lhe perguntar se ele achava que Valério estaria mentindo. "Pergunta para ele", respondeu.

Valério teria entregue à Justiça documentos que provariam o envolvimento de Lula. Em Paris, o ex-presidente reagiu à sua fala: "É tudo mentira". Entre os membros da comitiva, o empenho era para minimizar o caso. O ex-ministro Luis Dulci negou que o noticiário sobre Valério tivesse afetado a viagem de Lula pela Europa e insistiu que o ex-presidente sequer falou do caso com a comitiva. "São denuncias velhas", afirmou.

Lula, porém, tratou da crise 110 PT envolvendo os escândalos de corrupção em um longo almoço que teve com o ex-presidente espanhol, o socialista Felipe Gonzalez. O ex-chefe de governo da Espanha teve seus últimos anos de mandato cercado por escândalos de corrupção que afetaram a popularidade de seu partido durante anos. Gonzalez se recusou a dar detalhes da conversa, acompanhada por cava e charutos cubanos. "Foi maravilhoso", insistia.

Lula voltou ontem ao Brasil em um jato privado que, segundo sua assessoria, foi disponibilizado por investidores que organizaram uma palestra dele no Catar, no fim de semana.