Título: Brasil ameaça retaliar a Argentina
Autor: Landim, Raquel
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2012, Economia, p. B4

Para o governo, desvio de comércio provocado por barreiras é inaceitável.

O governo brasileiro está irritado com o desvio de comércio provocado pelas barreiras argentinas e ameaça retaliar o sócio do Mercosul. O assunto deve contaminar a reunião entre as presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, que encerra o encontro empresarial marcado para 27 e 28 de novembro em Cardales, cidade próxima a Buenos Aires.

De acordo com dados compilados pelo governo brasileiro, com base nas estatísticas do Instituto Nacional de Estatísticas e Censo (Indec) da Argentina, as importações provenientes do Brasil caíram 19,4% de janeiro a setembro, porcentual muito superior à queda de 3,4% registrada nas demais origens.

"Se não houver uma liberação, não restará alternativa a não ser endurecer", disse uma fonte do governo brasileiro ao Estado. Segundo essa fonte, o Brasil entende que a Argentina enfrenta um problema de falta de dólares para custear as importações, mas é "inaceitável" que as empresas brasileiras percam mercado para países de fora do Mercosul.

No ano passado, o Brasil chegou a impor barreiras contra os carros feitos na Argentina e, mais recentemente, bloqueou a entrada de produtos perecíveis como maçã, pera e batata. Se não ocorrer em breve uma liberação de licenças de importação para produtos brasileiros, as travas podem retornar. Ainda não há definição sobre quais produtos argentinos seriam afetados.

O governo brasileiro ficou bastante insatisfeito com o resultado de uma reunião bilateral entre a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, e o secretário de Comércio Interno da Argentina, Guilhermo Moreno, que ocorreu em São Paulo. A expectativa do Brasil era que os argentinos liberassem produtos afetados pelas licenças não automáticas de importação.

Moreno, no entanto, endureceu o discurso e disse que o Brasil perde mercado na Argentina para outros países por falta de competitividade. Para a administração Dilma, o argumento não faz nenhum sentido, porque os produtos já estavam vendidos, só não obtiveram permissão para entrar na Argentina.

Oito setores são os mais "sensíveis" na relação bilateral: autopeças, pneus, calçados, têxteis e confecções, móveis, linha branca, máquinas agrícolas e carne suína. No setor têxtil, as importações vindas do Brasil caíram 11,9%, enquanto as de outras origens subiram 24,8%. Na linha branca, as vendas do Brasil recuaram 18,7%, enquanto os argentinos compraram 53,5% mais de outras origens.

Cotas. A queda nas vendas para a Argentina afetou significativamente a indústria brasileira, que enfrenta dificuldade para recuperar o fôlego após o impacto da crise global. A situação é tão grave que os empresários brasileiros preferem acordos que estabeleçam cotas para as exportações para a Argentina à falta de previsibilidade que rege atualmente o comércio entre os dois países.

"Os acordos podem ser uma alternativa para dar mais regularidade ao comércio. A imprevisibilidade é fatal para os negócios", diz Domingos Mosca, consultor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). A entidade vai ser reunir com sua contraparte argentina em paralelo à reunião em Cardales para tentar estabelecer cotas de exportação para alguns produtos.

No setor calçadista, houve uma grande liberação de licenças de importação em meados do ano, mas a situação voltou a piorar em outubro. As empresas brasileiras ainda têm cerca de 500 mil pares a espera de autorização para entrar na Argentina - algumas dessas licenças estão pendentes há um ano.

Segundo Heitor Klein, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Calçadista (Abicalçados), o setor deve vender na Argentina 10 milhões de pares de calçados neste ano, menos que os 15 milhões de pares que eram comercializados quando o Brasil aceitava as cotas impostas pelo governo local e muito abaixo dos 25 milhões de potencial do mercado.

Alguns setores vêm sendo afetados há tanto tempo pelas barreiras argentinas que acabaram preferindo investir no país vizinho, para tentar equilibrar o comércio e conquistar a boa vontade do governo argentino na hora de liberar as licenças. É o caso de máquinas agrícolas, em que as empresas Case New Holland, Agco e John Deere anunciaram fábricas na Argentina.

De acordo com Milton Rego, vice-presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a participação das fabricantes de máquinas agrícolas instaladas no Brasil no mercado argentino caiu dos usuais 80% para 55%. "Pela primeira vez um fabricante argentino foi líder de vendas", contou Rego.