Título: Fatia dos bancos públicos no crédito foi de 37% para 47%
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/12/2012, Economia, p. B3

Estratégia do governo de estimular a atividade econômica via recursos do Tesouro ampliou participação de BNDES, BB e Caixa

O Tesouro Nacional injetou R$ 390,1 bilhões nos três ban­cos controlados pelo governo federal - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Brasil e Caixa Econômica Fe­deral - entre o fim de 2006 e outubro deste ano. No perío­do, a participação das institui­ções financeiras públicas no crédito total da economia sal­tou de 36,8% para 46,6%.

A forte expansão é resultado da estratégia do governo de esti­mular a atividade econômica e aumentar a concorrência no se­tor financeiro. Quarta-feira, o governo deu mostras de que a estratégia permanecerá ativa. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a liberação de R$ 100 bilhões para o BNDES no ano que vem. Desse valor, cerca de R$ 45 bilhões po­derão ter como fonte o Tesouro Nacional.

Para muitos analistas, porém, o modelo adotado pelo governo traz pelo menos dois riscos. O primeiro é financeiro: um cresci­mento muito acelerado do crédi­to pode implicar pesadas perdas no futuro caso haja alguma mu­dança abrupta no cenário econô­mico brasileiro e/ou global. Foi o que deu origem à crise finan­ceira internacional que estou­rou em 2008. "Se hoje, com a economia rela­tivamente em boa situação, os índices de inadimplência estão elevados, o que pode acontecer se houver uma reviravolta?", in­daga o analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu. Ele pon­dera que, atualmente, "o crédito está andando na frente da econo­mia, quando o ideal é que os dois caminhem juntos".

O analista refere-se à veloci­dade de expansão dos emprésti­mos e do Produto Interno Bru­to (PIB). Nos 12 meses termina­dos em outubro, o crédito total no País cresceu 16,6%, enquan­to o PIB deve avançar cerca de 1% no ano.

Na Caixa Econômica Federal, o ritmo tem sido muito mais ex­pressivo: 45%. Em geral, os gran­des bancos privados de varejo consideram saudável um cresci­mento do crédito duas vezes su­perior ao do PIB, já descontada a inflação.

Dívida do governo. O segundo risco apontado pelos especialis­tas na estratégia do governo é fiscal: a dívida pública bruta é pressionada pelos desembolsos do Tesouro Nacional aos ban­cos, embora a dívida líquida (que desconta os ativos do go­verno federal) permaneça em trajetória de queda.

"Se essa política for mantida indefinidamente, poderá levar o Brasil ater problemas de solvên­cia no futuro", afirmou o econo­mia Felipe Salto, especialista em finanças públicas e analista da Tendências Consultoria Inte­grada.

Salto, que levantou os núme­ros para o Estado, observa que a dívida bruta brasileira deve en­cerrar 2012 próxima de 64% do PIB, segundo os critérios do Fundo Monetário Internacio­nal (FMI). Na média, os países emergentes estão com endivida­mento na casa dos 35% do PIB. Os avançados, que enfrentam grave crise de confiança justa­mente por causa das dívidas ele­vadas, estão com 111% do PIB.

Para o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, esses dados mostram que a dívida bruta brasileira, hoje, não é alta nem baixa. "A questão é que a prudência recomenda que um governo mantenha o endivi­damento em níveis baixos para ter espaço fiscal caso tenha de enfrentar uma crise inesperada, como a de 2008", afirmou.

Se a folga fiscal não é tão gran­de, o socorro de um governo pa­ra evitar (ou amenizar) uma re­cessão pode se transformar em uma crise ainda maior. É o que ocorreu nos Estados Unidos, que tinham um nível de endivi­damento relativamente confor­tável antes da quebradeira de bancos.

As medidas de George W. Bush e Barack Obama para evi­tar uma depressão como a dos anos 30 elevaram a dívida e, por tabela, o risco fiscal. A situação americana só não é mais delica­da porque o país emite o dólar, ainda a moeda mais confiável do mundo.

Por tudo isso, o sócio da MCM Consultores e ex-diretor do Ban­co Central (BC), José Julio Sen­na, avalia que o governo tem de trocar de estratégia. "O proble­ma do Brasil, hoje, é estimular a oferta da economia, e não a de manda, seja por meio de mais crédito público ou outros instru­mentos", argumenta.

Ele pondera que, na fase mais aguda da crise, a resposta do go­verno fez sentido. "Foi aceitá­vel, naquela ocasião, o aumento do crédito público. Mas hoje vi­vemos a fase crônica da crise, que precisa de outro tipo de re­médio."

Senna afirma ainda que não vê riscos de solvência no Brasil de hoje, porque vários outros paí­ses têm situação fiscal pior. "Mi­nha preocupação maior é com o uso dos recursos públicos, que deveriam ser direcionados para questões mais prementes do dia a dia dos brasileiros, como saú­de, educação e segurança."

Ele acrescenta, ainda, que em­préstimos concedidos por insti­tuições financeiras privadas ten­dem a ser mais bem aplicados (e, portanto, mais eficientes) porque não costuma haver inter­ferência política na decisão.